domingo, 8 de novembro de 2015

O TRAJE DO VAQUEIRO


Ilustração de Percy Lau. In CASCUDO, Luís da Câmara. Tradições populares da pecuária nordestinaO mais antigo registo da indumentária do vaqueiro nordestino fê-lo Henry Koster em dezembro de 1810, nos sertões do Rio Grande do Norte, entre Açu e Mossoró:

"Vou dar a descrição do meu amigo que se afastou da estrada para indicar-me o poço. É a figura comum do sertanejo em viagem. Montava um pequeno cavalo com cauda e crinas compridas. A sela era um tanto elevada adiante e atrás. Os estribos eram de ferro ferrugento e os freios, a mesma forma. As rédeas eram duas correias estreitas longas.

Sua roupa consistia em grandes calções ou polainas de couro taninado mas não preparado, de cor suja de ferrugem, amarrados da cinta e por baixo víamos as ceroulas de algodão onde o couro não protegia. Sobre o peito havia uma pele de cabrito, ligada por detrás com quatro tiras, e uma jaqueta, também feita de couro, a qual é geralmente atirada num dos ombros. Seu chapéu, de couro, tinha a forma muito baixa e com as abas curtas. Tinha calçados os chinelos da mesma cor e as esporas de ferro eram sustidas nos seus pés nus por umas correias que prendiam os chinelas e as esporas. Na mão direita empunhava um longo chicote e, ao lado, uma espada, metida num boldrié que lhe descia da espádua. No cinto, uma faca, e um cachimbo curto e sujo na boca. Na parte posterior da sela estava amarrado um pedaço de fazenda vermelha, enrolada em forma de manto, que habitualmente contém a rede e uma muda de roupa, isto é, uma camisa, ceroulas e, às vezes, umas calças de Nanquim. Nasboroacas que pendiam de cada lado da sela conduzem geralmente farinha e a carne assada no outro lado, e o isqueiro de pedra (as folhas servem de mecha), fumo e outro cachimbo sobressalente. A todo este equipamento, o sertanejo junta ainda uma pistola, cujo longo cano desce pela coxa esquerda, e tudo seguro" (Viagens ao nordeste do Brasil, p. 133-134, Brasiliana, São Paulo, 1942)

Este sertanejo em viagem é o mesmo vaqueiro em jornada longa, seguindo murruá fujão, dias e dias.

O príncipe de Wied-Neuwied, em janeiro de 1817, descreve os vaqueiros italianos da Barra da Vareda, próxima aos limites de Minas Gerais:

Já aqui pude também travar conhecimento com os homens encarregados de guardar o gado; são os vaqueiros ou campistas, como os chamam em Minas Gerais, vestidos de couro de veado da cabeça aos pés. Essa vestimenta parece extravagante à primeira vista, mas é muito adequada, pois esses homens têm muitas vezes de correr atrás do gado, que foge através dos arbustos espinhosos e das caatingas, ou então são obrigados a fazer passar o gado por aí, para reuni-lo. A sua vestimenta consta de sete peças feitas de couro de veado; o chapéu, pequeno e arredondado com abas estreitas, que se alarga e alonga para trás para formar uma pala que abriga o pescoço; o gibão ou jaqueta, aberto na frente, por baixo do qual está o guarda-peito, largo pedaço de couro que desce até à barriga; as perneiras ou calções, por debaixo das quais estão as botas munidas de esporas. Uma vestimenta desse gênero dura muito tempo, é fresca, leve e defende-os dos espinhos e das pontas dos galhos. O vaqueiro, montado num bom cavalo sobre uma sela acolchoada, leva na mão uma longa vara cuja extremidade é guarnecida por uma ponta de ferro rombuda, com que abate ou afasta os bois furiosos; às vezes, leva também um laço para pegar os animais mais bravios" (Viagem ao Brasil, 376)

Von Martius, em meados de 1817, viu no interior de São Paulo o uso da roupa de couro, diária e comum: "Os paulistas do povo, os peões sobretudo, costumam usar uma sela pequena, chata, de madeira, que nem sempre é forrada de couro (selim), com estribos tão pequenos que neles só cabe o dedo grande do pé. As esporas são adaptadas ao pé descalço. No mais, consiste a roupa do peão em um curto gibão, perneiras justas e um chapéu em forma de prato, preso ao pescoço com uma correia, tudo de couro pardo de veado ou de capivara, e este vestuário protege-o muito eficazmente contra as cercas de espinheiro, que tem de atravessar na perseguição aos animais" (Viagem pelo Brasil, I, 255)

Euclides da Cunha (Os sertões, 12ª edição, 118-119) desenha o vaqueiro das caatingas baianas: "O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o do guerreiro antigo exausto da refrega. As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até às virilhas, articuladas emjoelheiras de sola, e resguardados os pés e as mãos pelas luvas eguarda-pés de veado – é como a forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo. Esta armadura, porém, de um vermelho pardo, como se fosse de bronze flexível, não tem cintilações, não rebrilha ferida pelo sol. É fosca e poenta. Envolve ao combatente de uma batalha sem vitórias… A sela da montaria, feita por ele mesmo, imita o lombilho rio-grandense, mas é mais curta e cavada, sem os apetrechos luxuosos daquele. São acessórios uma manta de pele de bode, um couro resistente cobrindo as ancas do animal,peirorais que lhes resguardam o peito, e as joelheiras apresilhadas à juntas. Este equipamento do homem e do cavalo talha-se à feição do meio. Vestidos doutro modo não romperiam, incólumes, as caatingas e os pedregais cortantes".

Dizemos a roupa do vaqueiro véstia. O chapéu, chato e redondo não guarda para o nordeste a proteção do cobre-nuca que Wied-Nieuwied fixou no alto sertão baiano, na fronteira com Minas Gerais e Rugendas desenhou em Goiás. É preso ao queixo pelobarbicaxo, espécie de jugular. Mantém-se o gibão, curto, antigo ou cobrindo o assento, de certo tempo para cá; as perneiras, que são calças; o guarda-peito, colete solto, duma só peça, bordado a retrós, os guantes, luvas que apenas defendem o dorso das mãos, e os sapatões de couro cru, durando uma existência.

É uma raridade encontrar-se o peitoral no cavalo, larga faixa de couro guardando-lhe o peito. É ainda comum nos sertões pernambucanos, para o sul. Para o norte, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, quase desapareceu.


(CASCUDO, Luís da Câmara. Tradições populares da pecuária 

Fonte: Internet

sábado, 7 de novembro de 2015

CHAPÉU DE COURO: O capacete do vaqueiro nordestino


Picture
“Quem usa chapéu de couro
simboliza a região,
tem as raízes da terra
plantadas no coração”
Biliu de Campina

O Chapéu de couro é um símbolo do vaqueiro nordestino e faz parte da indumentária de proteção juntamente com o gibão e a perneira. Com esse conjunto o vaqueiro está pronto para se embrenhar na caatinga e capturar aquele boi mandingueiro, sem medo de se estrepar nos garranchos. “Vaqueiro que é vaqueiro só tira o chapéu de couro pra tomar banho, dormir ou quando está na missa.” É o que costuma declarar nas rodas de amigos o vaqueiro Manoel de Germano que aos 60 anos ainda se dana dentro do mato atrás de boi brabo.

A indústria cultural não conseguiu tirar de circulação o velho e autêntico chapéu de couro, usado por Luiz Gonzaga, Lampião, Dominguinhos, Santana e tantos outros. Surgiram variações, mexeram no designer, inventaram novas técnicas de tratar o couro, mas ele continua firme e forte na cabeça dos nordestinos e até mesmo de turistas internacionais.

Atualmente a maior produtora de chapéu de couro do Brasil é a cidade de Cabaceiras no Carirí paraibano, situada a 180Km da Capital João Pessoa. Cabaceiras é uma das cidades que menos chove no mundo e é conhecida como a”Roliúde Nordestina” por atrair produções cinematográficas, a exemplo do filme Auto da Compadecida,gravado no município.

Cabaceiras possui um dos maiores rebanhos de ovinos e caprinos do estado. É um grande celeiro de artesanato em couro, a partir da pele de bode, curtida através de processo vegetal e utilizado na confecção de bolsas, sandálias, cintos, coletes, gibão, chaveiros, celas, arreios e o tradicional chapéu de couro.

A ARTEZA , uma cooperativa situada no Distrito de Ribeira à 14Km da cidade, reúne 8 fabricas de artefatos em couro, seis com sede no próprio distrito e duas em Cabaceiras. Atualmente mais de 300 pessoas, que antes não tinham renda, estão envolvidas no trabalho de produção de artefatos, inclusive na fabricação do chapéu de couro.

Em companhia do artesão José Carlos Castro, presidente da ARTEZA, visitamos algumas das fabricas em Ribeira. Uma delas foi a de seu José Guimarães que mandou abrir o seguinte letreiro na fachada: ARTESANATO DO ZÉ, O REI DO CHAPÉU DO CHIFRE. Eles fabrica diferentes modelos de chapéus com destaque para o chapéu de couro que já vem com um par de chifres de bode.

Lá dentro da oficina, uma grande surpresa. Quando você pensa em couro de animal logo vem à lembrança daquele cheiro forte. Pois é, não foi assim. Essa é a grande diferença do material que é produzido na região de Cabaceiras. Em parceria com a UFCG – Universidade Federal de Campina Grande a ARTEZA desenvolveu uma técnica de tratamento do couro que envolve a fermentação, no qual ele não fica com aquele cheiro forte que estamos acostumados a sentir por aí.

Para Carlos Castro, a grande vantagem de se trabalhar com o couro de caprinos e ovinos é a elasticidade, a facilidade com que ele ganha forma, diferente do couro do boi. Experiente, Carlos nos deu uma aula de como fabricar o chapéu. O couro do animal é levado para o curtimento vegetal. Lá ele é tratado, pode permanecer cru, com ou sem pelo, ser tingido ou não.

Na segunda parte o couro é cortado, dependendo das medidas determinadas. Tudo feito à mão por jovens artesãos. No início eles tiveram que promover uma espécie de campanha para recrutar jovens para trabalhar nas oficinas e conseguiram treinar 30 pessoas. Na última vez que abriram vagas já foram 167 interessados que desta vez participaram de uma seleção. Eles têm que ter bom desempenho escolar para poder trabalhar nas fábricas.

Depois do corte o couro é molhado para ficar mais elástico e assim ser colocado nos moldes. É lá que eles ganham forma e vão para a secagem. Esse processo depende da temperatura ambiente e pode durar duas horas ou mais. Como chove pouco por lá, isso não é um grande problema.

Em seguida, o chapéu ganha a aba que vai proteger o rosto do vaqueiro do sol. Na Paraíba ela se caracteriza por ser curta. Em regiões como a Bahia ela costuma ser maior. Mas na oficina do Zé eles fazem de acordo com o gosto do comprador, com o pelo do animal e a aba branca, por exemplo.

A última etapa é a costura. Primeiro ele vai para a máquina de costura reta receber o acabamento, mas os desenhos e aplicações ficam por conta da máquina a mão, que apesar de ser mais trabalhosa é quem vai dar riqueza de detalhes ao chapéu.

Carlos castro viu o pai, José Ambrósio de Castro, produzir chapéus e trabalha com isso desde criança. Com apenas treze anos foi questionado por ele sobre o que queria fazer da vida. Carlos não contou conversa e sem demora respondeu: CHAPÉU DE COURO! Aos quinze já tomava conta de uma fábrica e de lá pra cá só tem ajudado a espalhar o nome de Cabaceiras.

A qualidade do material e da produção é tanta que eles chegam a fazer até 3.600 chapéus por mês e vendem também para vários estados do Brasil e até para o exterior. “As vezes falta matéria prima e pessoal qualificado para atender a demanda” diz Carlos, que se orgulha de ter confeccionado chapéus de couro para artistas e personalidades do país inteiro.

O preço de um chapéu de couro na fonte varia de R$ 8,00 a R$ 30,00 e um gibão bem trabalhado chega a custar até R$ 500,00.

Agora você já sabe. A cidade de cabaceiras na Paraíba produz um chapéu de couro de primeira, um chapéu que não tem cheiro, não deforma, não solta as tiras e apresenta estilos arrojados, incluindo chifres.


Rafaela Gomes de Oliveira
Fonte internet.

Mulheres cultas tendem a beber mais álcool, diz estudo na Inglaterra


Universitárias consomem mais bebidas alcoólicas do que mulheres com menor grau de instrução, sugere uma nova pesquisa da London School of Economics, realizada na Grã-Bretanha. De acordo com o estudo, as mulheres cultas também são mais propensas a admitirem problemas envolvendo o abuso do álcool.

Uma relação semelhante entre o grau de escolaridade e o consumo de bebidas alcoólicas também foi identificada entre os homens, entretanto ela é bem menos influente do que o que ocorre com o público feminino.

Os pesquisadores acompanharam milhares de pessoas, de ambos os sexos, nascidos em uma mesma semana de 1970, na Grã-Bretanha. O relatório concluiu que quanto mais culta for uma mulher, maior as chances dela beber semanalmente. Os estudos afirmaram, ainda, que quanto maior o grau de instrução escolar, maior a tendência de um profissional do sexo feminino admitir problemas de dependência com relação ao álcool.

Os testes foram feitos anos antes dos voluntários chegarem à vida adulta, enquanto ainda estavam na fase escolar. As adolescentes que registraram notas mais altas no colégio, de acordo com a pesquisa, mostraram ter até 2,1 mais chances de beber no dia a dia do que alunas de desempenho inferior.

Fonte: internet

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

CICLO DO AÇUCAR

Antes de ter sido um país identificado com o café, o Brasil assinalou sua presença na economia mundial pela produção de açúcar.
Tanto assim que palavras como "melaço" e "mascavo" ou "mascavado", mesmo que transmudadas em formas anglicizadas (molasses, muscovado), logo se tornaram correntes no vocabulário do comércio internacional.
Entende-se por ciclo do açúcar a fase da história do Brasil marcada pela produção de açúcar nos engenhos nordestinos.
Começou pouco depois da descoberta e acarretou profundas conseqüências sociológicas e culturais, até o século XVIII. As formas de vida social, política e cultural decorrentes da economia açucareira no Nordeste constituíram matéria de numerosos estudos, depois do livro pioneiro de Gilberto Freire, Casa grande & senzala (1933).
Origens. Durante a Idade Média, as poucas quantidades de açúcar consumidas na Europa procediam do Oriente, de onde é nativa a cana-de-açúcar, sendo o comércio desse artigo monopolizado por Veneza. Em meados do século XV a cana foi introduzida pelos portugueses na ilha da Madeira e pelos espanhóis nas Canárias.
Seu cultivo prosperou tanto que o açúcar das novas possessões ibéricas passou a chegar à Europa a preços muito baixos, popularizando o consumo de um produto que até então se limitara às moradias dos ricos, aos hospitais e aos boticários, que o utilizavam apenas como base de preparados farmacêuticos.
Estimulados pelos bons frutos colhidos com a concorrência à república veneziana, os portugueses trouxeram para o Brasil, logo depois da descoberta, as primeiras mudas de cana. Da capitania da qual se originaria São Paulo, a de São Vicente, por onde a planta entrou na colônia e onde se estabeleceram os primitivos engenhos, a cana-de-açúcar se irradiou sem demora por todo o litoral brasileiro.
Implantação dos engenhos. O primeiro engenho de açúcar de que se tem notícia no Brasil foi instalado em São Paulo por volta de 1532. Três anos mais tarde já havia alguns outros funcionando em Pernambuco, onde iriam assumir extraordinária importância. Depois de 1550 começou a produção de açúcar na Bahia, cujos primeiros engenhos foram destruídos pelos índios.

Na ilha de Itamaracá PE, em 1565, a produção já era florescente, e na década seguinte foram instalados os primeiros engenhos de Alagoas. Nessa mesma época, grande parte das várzeas e morros pouco a pouco ocupados pela cidade do Rio de Janeiro constituía um vastíssimo canavial que alimentava no mínimo 12 grandes engenhos.
No final do século XVI, o Brasil já se convertera no maior produtor e fornecedor mundial de açúcar, com um artigo de melhor qualidade que o procedente da Índia e uma produção anual estimada em seis mil toneladas, cerca de noventa por cento das quais eram exportadas para Portugal e distribuídas na Europa.
Ao açúcar fabricado no Brasil abriram-se mercados grandemente vantajosos. Sabe-se que antes de 1500 os europeus, em geral, só adoçavam seus alimentos e bebidas com um pouco de mel. Compreende-se assim que, ao revolucionar com o açúcar o sistema europeu de alimentação, o Brasil recém-descoberto tenha assegurado aos portugueses rendimentos mais regulares ou estáveis que as riquezas do Oriente.
Também se compreende que a atenção dos portugueses, a princípio concentrada no Oriente, se voltasse para o Brasil. Por isso, as áreas brasileiras mais favoráveis ao cultivo da cana foram, quase de súbito, alteradas em sua configuração e paisagem pela presença de famílias patriarcais, vindas de Portugal com capitais suficientes para se estabelecerem feudalmente.
A escolha do produto tropical não fora casual. Contava a seu favor a experiência dos colonos portugueses com o cultivo da cana e a manufatura do açúcar na Madeira e outras ilhas do litoral africano.
Da Madeira, de fato, a produção de açúcar passara ao arquipélago dos Açores, ao de Cabo Verde e à ilha de São Tomé. Essa experiência anterior teve enorme importância para a implantação de engenhos no Brasil, pois familiarizou os portugueses com os problemas técnicos ligados à lavoura da cana e ao fabrico do açúcar, motivando em Portugal, ao mesmo tempo, a invenção e o aperfeiçoamento de mecanismos para os engenhos.
A primeira grande inovação tecnológica na indústria brasileira do açúcar só iria ocorrer nos primeiros anos do século XVII. Nos melhores engenhos, a cana era até então espremida entre dois cilindros horizontais de madeira, movidos a tração animal ou por roda-d'água. Para uma segunda espremedura, com a qual se obtinha mais caldo, usavam-se também pilões, nós e monjolos.
O novo tipo de engenho adotado compunha-se de três cilindros verticais muito justos, cabendo ao primeiro, movido por roda-d'água ou almanjarra, fazer girar os outros dois. Em caldeiras e tachos, o caldo era a seguir fervido para engrossar, posto em formas de barro e levado à casa de purgar para ser alvejado. A nova técnica se difundiu por todo o Brasil, com os engenhos mais eficientes substituindo os antigos.
Progressão das lavouras. Foi sobretudo nas zonas de clima quente do litoral do Nordeste e do Recôncavo baiano que os efeitos do plantio da cana se tornaram mais evidentes.
Processou-se ali a primeira transformação mais extensiva da paisagem natural, com o desbravamento das matas e sua substituição por grandes canaviais que penetraram ao longo dos vales e subiram pelas encostas dos morros. Os cursos dos rios perenes favoreceram a atuação dos engenhos, como vias de escoamento da produção açucareira até os portos de embarque situados na costa.
Com o incremento da produção, multiplicaram-se os bangüês e as grandes moradias rurais dos senhores da nova riqueza agrária. Para manter essa riqueza, instalou-se uma corrente contínua de transplantação de escravos africanos, alojados nas senzalas, símbolos de uma era tenebrosa da agricultura brasileira.
A princípio, as superfícies cultivadas com cana distribuíam-se em quinhões chamados "partidos", ora obtidos por compra, ora por acupação desordenada. Plantavam-se ainda as "terras de sobejo", ou as que eram acrescentadas por fraude, nas medições, às áreas legalmente vendidas. Além dos escravos, com o tempo também lavradores livres passaram a trabalhar  em terras que pertenciam aos engenhos.
Alguns mantinham seus canaviais em áreas arrendadas; outros plantavam não só cana, como ainda pequenas roças de subsistência, constituídas principalmente por milho, mandioca e feijão.
Em geral, os lavradores livres serviam-se dos engenhos a que estavam agregados para fazer açúcar, em troca de uma parte da produção. Todos eles formavam, na verdade, uma clientela de importância vital, pois só com o concurso das lavouras subsidiárias ou dependentes muitos engenhos podiam manter-se em atividade ininterrupta durante os meses da safra.
Em sua grande maioria, os que se dedicavam às lavouras de subsistência vegetavam à sombra da tolerância dos senhores de engenho, que desse modo contavam com recursos para o abastecimento de suas próprias famílias. Sobre os vastos conjuntos de agregados os senhores exerciam uma autoridade que variava conforme o sistema de trabalho ou a forma de ocupação da terra.
A condição do pessoal dos engenhos, por conseguinte, sujeitava-se a variações jurídicas, econômicas e sociais, escalonadas desde a dos negros escravos até a dos lavradores dos "partidos", que moíam "cana livre". Entre os dois extremos, situavam-se os lavradores livres como pessoas, contudo dependentes da propriedade senhorial das terras, que eram obrigados à moenda e cujas colheitas passaram significativamente a ser rotuladas como "cana cativa".
Aspectos sociológicos: a casa-grande. Com seu complexo esquema de funcionamento, o engenho de açúcar foi a forma de exlporação agrária que melhor assumiu, no Brasil colonial, as características básicas da grande lavoura. Isso porque, além dos trabalhos de cultivo do solo, o engenho requeria toda uma série de operações exaustivas, com aparelhamento de obtenção difícil e mão-de-obra abundante.
Com seus vários prédios para moradia e instalações fabris -- a casa da moenda, a das fornalhas, a dos cobres e a de purgar, além de galpões para estocar o produto --, o engenho constituía um pequeno aglomerado humano: um núcleo de população.
De início, ocupava apenas uma clareira na floresta, onde se amontoavam as construções de adobe e cal. Com a progressiva expansão das lavouras pelas áreas em torno, a clareira primordial se converteu não raro num esboço de aldeia, mas muitos dados sociológicos básicos já haviam sido definidos naquele mundo fechado sob o poder dos senhores.
A casa-grande, residência do senhor de engenho, assobradada ou térrea e sempre bem imponente, constituía o centro de irradiação de toda a atividade econômica e social da propriedade.
A casa-grande se completava com a capela, onde as pessoas da comunidade, aos domingos e dias santificados, reuniam-se para as cerimônias religiosas. Próximo se erguia a senzala, habitação dos escravos, classificados como "peças", que se contavam às centenas nos maiores engenhos.
Os rios, vias de escoamento do açúcar, eram também com freqüência as únicas estradas de acesso: por eles vinham as toras que alimentavam as fornalhas do engenho e os gêneros e artigos manufaturados adquiridos alhures, como tecidos e louças, ferramentas e pregos, papel e tinta, barris de vinho ou de azeite.
A casa-grande, a senzala, a capela e as casas destinadas ao fabrico do açúcar definiam o quadrilátero que dava a um típico engenho sua conformação mais comum. Outras construções, em número variável, podiam servir de residência ao capelão, ao mestre de açúcar, aos feitores e aos poucos trabalhadores livres que se ligavam às atividades do engenho por seus ofícios, como barqueiros, carpinteiros, pedreiros, carreiros ou calafates.
Na maior parte do território brasileiro, ao que parece, predominaram os pequenos engenhos, com reduzido número de escravos e movidos pela força animal. Contudo, no final do século XVIII considerava-se indispensável um mínimo de quarenta escravos para que um engenho pudesse moer "redondamente" durante as 24 horas do dia. Na mesma época, grandes engenhos da capitania do Rio de Janeiro mantinham sob a chibata várias centenas de escravos, como o da Ordem de São Bento, que chegou a ter 432.
Reflexos culturais. Foi à sombra da civilização do açúcar, em meio ao estrago ecológico da derrubada de matas e à exploração da mão-de-obra servil, que começaram a desenvolver-se na América portuguesa a urbanização e a arquitetura, as tradições culinárias e o artesanato, a medicina e as ciências naturais. Tais artes e ciências surgiram como manifestações do sistema de cultura ibero-católico, ao qual coube a primazia no desenvolvimento da civilização brasileira.
Os benefícios da cultura foram porém notavelmente avigorados pela presença dos holandeses -- e, em especial, do conde Maurício de Nassau -- no Nordeste açucareiro do Brasil, durante o século XVII.
Foi com os holandeses, atraídos para o Brasil porque as terras de massapê eram ideais para a cultura da cana e também porque Recife ficava numa posição econômica e comercial estratégica, que se realizaram os primeiros estudos sistemáticos da flora e da fauna tropicais; que se deu a um burgo, a própria Recife, um traçado científico para a conversão em cidade; que se realizaram as primeiras quermesses e outras recreações populares de sabor não ibérico, que se pintaram as primeiras paisagens e se fixaram em desenhos os tipos humanos, as habitações e os costumes da época; que se criaram condições para a convivência de três cultos, o católico-romano, o protestante e o judaico, sob as vistas liberais do poder; que se esboçaram formas de governo representativo, admitindo-se nessa representação elementos das populações dominadas pelos invasores.
Não consta que os holandeses tenham concorrido, de modo específico, para o aperfeiçoamento técnico da agricultura da cana e do fabrico do açúcar no Brasil. Sabe-se porém que foi em grande parte obra de sua ciência, depois de enriquecida pela experiência brasileira, o aperfeiçoamento do processo de refinar o açúcar. Esse progresso se realizou na França a partir de meados do século XVII, deixando em desvantagem comercial, desde o fim do mesmo século, o açúcar brasileiro pardo e mal refinado, o mascavo.
Êxodo e decadência. Com a reconquista das terras brasileiras de açúcar pelos portugueses e brasileiros -- brasileiros que parecem ter adquirido sua primeira "consciência de espécie" nas lutas contra o invasor holandês -- o Nordeste foi abandonado por grande parte dos judeus que, durante o século XVI e nos primeiros decênios do XVII, haviam contribuído para dar prestígio comercial ao açúcar brasileiro, colocando-o nos melhores mercados.
Muitos desses judeus deixaram Recife para instalarem-se em outras áreas da América tropical como animadores ou organizadores da agricultura da cana e da indústria do açúcar. Não raro, fizeram-se acompanhar de escravos peritos nessas especialidades.
Alguns transferiram-se, entretanto, de Recife para a então Nova Amsterdam, depois Nova York, que teve assim, entre outros pioneiros israelitas de sua grandeza comercial, homens cuja primeira experiência americana se verificara em terras brasileiras de açúcar e em atividades ligadas ao desenvolvimento de uma civilização apoiada na agricultura da cana e no fabrico e exportação do muscovado.
No século XVIII o Brasil já havia perdido a liderança da produção açucareira, em face da concorrência de colônias francesas, inglesas e holandesas na América, como também das oscilações de preços no mercado mundial e da corrida em busca do ouro, que levou a um progressivo abandono das lavouras e engenhos.
A fase de decadência, paralela ao crescimento de outros produtos de exportação, como o fumo, o algodão e sobretudo o café, prolongou-se até quase a independência. Por essa época, tentou-se revitalizar a agroindústria açucareira, com a introdução da máquina a vapor e aplicações da química e da física. Milhares de engenhos, os velhos bangüês, espalhavam-se então pelo país, tentando resistir a concorrentes fortes que surgiam nas regiões mais adiantadas.
O primeiro engenho central, com matéria-prima vendida pelos agricultores para o processamento em instalações industriais já bem aperfeiçoadas, foi inaugurado na então província do Rio de Janeiro em 1878. Grandes engenhos, nessa fase, transformaram-se em usinas. Com o avanço da indústria, os bangüezeiros, antes senhores absolutos da produção do açúcar, ficariam cada vez mais reduzidos a meros fornecedores de cana.

Fonte: http://www.mundovestibular.com.br/

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Sanfona pode custar mais de R$ 20 mil na única fábrica do Nordeste


Amazan Silva conta como o instrumento mudou sua vida. Sanfona é quem dá o tom e sustenta muitos brasileiros, como a família Alves há quatro gerações.

O som vem de longe, e a música dá o sinal. O arrasta pé já começou! E a grande estrela dessa festa a sanfona, que encanta o Brasil nessa época, toca o coração dos nordestinos o ano inteiro. Tudo começou com o forró pé-de-serra, feito para os casais dançarem agarradinhos. Das casas simples do sertão, o forró conquistou as grandes cidades. O ritmo movimenta a economia e agita o mercado de trabalho.

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E o palco mais popular são as casas de reboco.
“Geralmente, a sala de reboco. Ela remete mais àquele caboclo que juntou os amigos pra rebocar a sala dele”, explica o empresário e sanfoneiro Amazan Silva.
Quem conta essa história é um empresário de sucesso. Um homem nascido no Nordeste, que conseguiu tudo isso sem deixar a terra onde nasceu. Uma carreira que começou na sala de reboco.
“Domingo vai ter um reboco lá em casa! Aí, compra uma branquinha, manda matar umas galinhas de um chiqueiro ou um bodezinho, prepara aquela comedoria, aquela bebidazinha...Os ‘cabra’ vem, passa a manhã inteira rebocando a sala e ‘dispois’, como diz o matuto, depois vão dançar na sala de rebocada. Na sala de reboco”, conta Amazan.

Amazan aprendeu a tocar sozinho, ainda criança, com a sanfona de um primo, o Hamilton. A mãe dele ficou espantada!
Globo Repórter: Menino pobre, sem sanfona, trabalhando na roça...Como é que veio o sonho da sanfona?
Amazan Silva, empresário e sanfoneiro: Ah, porque já era um pensamento de ser artista e de mudar de vida, né? Ao invés de estar apanhando algodão, limpando mato, estar tocando sanfona. Eu imaginava que era mais gostoso! Como de fato é.

Globo Repórter: A sanfona era o passaporte para uma vida melhor? 
Amazan Silva: Pra uma vida melhor, sem sombra de dúvida. E graças a Deus, foi o que aconteceu.

De sanfoneiro, ele virou dono de uma fábrica de sanfonas - a única do Nordeste. Embarcar nesse desafio foi conselho de amigo: “É melhor você, em vez de montar, fabricar logo, rapaz! Você ser um fabricante de acordeão”, relembra o cabelereiro e sanfoneiro Elídio Batista.

Elídio era barbeiro de Amazan naquela época.

“E eu, cortando o cabelo dele, ele chegou pra mim e disse: ‘eu vou pra Itália!’ ‘Fazer o quê?’ ‘Me informar sobre acordeão!’”, diz Elídio.

“E o resultado foi que, quando eu fabriquei a primeira, levei pra casa, eu não consegui dormir também, porque eu deixei a sanfona na sala e fiquei deitado no quarto. De vez em quando eu levantava pra ir olhar a sanfona. Aí, pra facilitar, eu trouxe a sanfona e botei perto da cama. De vez em quando eu descobria o rosto e olhava pra sanfona”, lembra Amazan.
“A sanfona é uma filha que eu estou tomando conta”, diz Veneziano Barbosa, funcionário da fábrica. Veneziano é o funcionário mais antigo. Antes da fábrica, ele já trabalhava para Amazan. Perdeu os dedos, cuidando dos bodes que ele tinha no quintal.
Veneziano Barbosa, funcionário da fábrica: Aqui eu cortava capim e moía na forrageira para os carneiros de raça de Amazan.
 
Aprendeu a nova profissão graças a Amazan.
“Hoje eu tenho orgulho que ensinei a vários meninos aí, já tem os meninos trabalhando. Fui eu que ensinei a eles. É muito bom. Quando eu vejo um sanfoneiro em cima de um palco, quando eu chego, vou lá olhar qual a sanfona que ele está tocando. Porque, se for uma que a gente fabricou, eu digo ‘minha mão passou ali’. A gente tem muito orgulho”, conta Veneziano.

O modelo mais completo chega a custar mais de R$ 20 mil. A fábrica tem 22 funcionários. Mão-de-obra especializada, um time de primeira.
Amazan Silva: Em um país que tanto precisa de emprego, você consegue uma coisa como a gente fez, realizar um sonho, mas também empregar várias famílias.
Globo Repórter: Mas você continua firme no palco?
Amazan Silva: Ah, não tenha dúvida! Nesse período agora, o que não falta é forró.

Paixão pela sanfona une quatro gerações de família no Recife
Quatro gerações e uma paixão sem limite pela sanfona: a história da família Alves começou no interior da Paraíba, em Itaporanga. No sítio, o palco é o quintal de casa, debaixo do pé de cajarana, uma árvore centenária.

Badu e Maria José têm três filhas. As meninas já estão moças. Mas cresceram no meio da festa.

Globo Repórter: Você fez questão que suas filhas aprendessem música?
José Hilton Alves (Badu), empresário: Foi. Na nossa casa sempre a cada duas bonecas tem que ter um instrumento de música - um cavaquinho, violão. Elas mostraram as suas habilidades e, depois, cada um tomou seu caminho profissional de acordo com a sua convicção, mas Luci se decidiu e jogou todas as cartas na música.

Luciane é Luci Alves. Estudou música e está seguindo carreira solo. Larissa e Lizete escolheram a medicina. Mas família que toca unida, permanece unida - sempre que podem, eles sobem juntos ao palco.
A sombra da cajarana guarda muitas histórias de sucesso. Foi nas festas de São João que um tio-avô dela encontrou um caminho para mudar a história da família.
“Aprendi a tocar e, graças a Deus, fui feliz. Soube muito bem administrar o que ganhei, investi certo e hoje nossa família é independente. Saímos do alugado pra hoje ter filhos, netos formados”, conta o sanfoneiro Severino de Araújo, o Biu de Dedé.
O tio Biu, de 85 anos, sempre foi um exemplo para todos.
“Nunca é tarde pra viver feliz. Eu continuo com o mesmo prazer de viver, por conta da família, por conta da minha amizade, a minha boa referência dentro da sociedade - e a vida continua. Eu ainda penso que vou viver muito! E vai dando certo” afirma.

Quando se pergunta ao menino Heitor qual é o maior sanfoneiro que ele já conheceu, ele aponta para o avô.

“Com a sanfona você faz uma festa sozinha! Você consegue tocar de tudo. Então, esse fascínio foi me movendo e, aos poucos eu fui abraçando e me apaixonando cada vez mais pela sanfona. No começo eu tocava baixo, outros instrumentos e painho sempre falava: ‘se dedique à sanfona, menina! Isso aí vai ser a sua felicidade. Você vai ver’. E foi assim”, conta a sanfoneira Luci Alves.

E é assim todo ano! A sanfona dá o tom e sustenta muitos brasileiros.
O comércio se enfeita à espera dos fregueses. As costureiras têm que se apressar para entregar as encomendas.
“Claro que a gente tem que ganhar dinheiro, que é pra poder fazer os pagamentos das funcionárias que trabalham comigo. Mas eu ainda faço doação de duas roupas, porque nem todos tem dinheiro suficiente pra pagar à quadrilha. Em todo canto que a quadrilha vai, eu vou. Eu sou apaixonada, apaixonada, mesmo, pela quadrilha. Posso nem falar muito, senão eu vou chorar, viu? É muita paixão”, conta a costureira Etiene Cavalcanti.

O negócio é sério: durante três meses, uma fábrica só faz sapatos para quem participa das festas juninas.

“A gente começa com dificuldade nos primeiros meses do ano, mas quando chega esse período de abril a junho, a gente tem emprego garantido”, diz o empresário Lucivan Batista.

Orquestra Sanfônica faz a alegria do público em João Pessoa
Mas são os sanfoneiros que fazem a festa: a apresentação da Orquestra Sanfônica de João Pessoa, na Paraíba, é uma alegria.

“São momentos emocionantes. O tempo todo o público canta com a nossa orquestra, porque são músicas que já se tornaram hinos aqui no Nordeste”, conta o maestro Lucílio Souza.
“Essa época é boa demais, porque é o décimo terceiro do sanfoneiro, né? É no São João”, conta o sanfoneiro Rodrigo Machado.
Eles já viajaram para a França e vão aonde o povo está.
“A gente trabalha com a orquestra, fazendo com que esse trabalho seja de excelência e possa alcançar qualquer tipo diz o maestro Lucílio Souza.
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