domingo, 31 de maio de 2009

EQUÍVOCOS SOBRE CANTORIAS: OPINIÃO DE DENTRO PARA FORA POR EDMILSON FERREIRA .



Gostaria de parabenizar INTERPOÉTICA pela iniciativa de expor um debate sobre a cultura popular, mais especificamente a Cantoria. No entanto há algumas informações emitidas na entrevista (com Ésio Rafael) que precisam ser corrigidas. Isso não significa, porém, que a matéria publicada não seja digna de louvor.

Refiro-me, em primeiro lugar, à crítica que o entrevistado, Ésio Rafael, faz ao fato de os Cantadores assistirem ao jornal da Globo apenas para reproduzi-lo, sendo, assim, usados pela grande mídia. A realidade é outra; e para que a compreendamos é necessário voltarmos um pouco no tempo.

Historicamente, a produção literária, sobretudo a escrita, foi privilégio de uma minoria letrada, que para se manter afastada da maioria não letrada pesava na erudição dos textos produzidos. Daí, o surgimento da figura do "mediador", sujeito intermediário que se propunha a fazer uma espécie de tradução do texto erudito para que o povo pudesse entendê-lo, ou seja, reescrevia os textos difíceis para torná-los acessíveis. Na cantoria, isso foi e é feito pelos repentistas, que sempre cantaram temas de linguagem mais complexa como bíblia sagrada, mitologia, historia geral, geografia etc. de maneira simplificada. Num primeiro momento, quando a informação era privilégio de poucos, esses artistas, que freqüentemente iam às comunidades mais interioranas, assumiam o papel de transmissores das informações a que tinham acesso nos grandes centros. Vistos por este prisma, os repentistas ao mesmo tempo em que se enquadram no conceito de artistas populares podem seguramente se encaixar na posição de mediadores. Mais recentemente, porém, com a larga difusão das informações os repentistas começaram fazer uma leitura crítica dos temas abordados nas suas apresentações em cantorias e festivais. Antes havia uma simplificação da linguagem (para compreensão); hoje há um posicionamento acerca dos fatos (para reflexão).

Essa habilidade crítica não suprimiu a capacidade poética desses artistas, que acompanham os avanços do seu tempo sem tirar o pé do chão. Chega a ser interessante, mas contraditório, o fato de a uma crítica enfática seguir-se um nada contra.

Na ordem em que a entrevista transcorre, faz-se necessária uma outra observação. Trata-se do comentário-pergunta de Astier Basílio que afirma existir uma terceira geração ou geração pós-Nonatos. Três equívocos: i) a cantoria não está na sua terceira geração. Desde a primeira metade de século XIX que essa atividade cultural desbrava, de forma ininterrupta, os mais diversos rincões do nosso país; ii) não há uma geração pós Nonatos, o que há é uma geração que como qualquer outra pode ser influenciada, mas também influencia; iii) a afirmação de que nos festivais atuais as folhas não são mais sorteadas e os cantadores cantam decorados é um equívoco gritante. Não vou muito longe para provar. Tenho o privilegio de participar de quase todos os grandes eventos da cantoria por todo o Brasil e, por algumas vezes, até fora dele, e não tenho me deparado com esse tipo de proposta por parte dos promoventes, nem com esses "textos prontos" por parte dos colegas. O que tenho constatado é uma transparência de ambas as partes digna de elogio. É curioso observar que esse tipo de informação que denigre a dignidade dos repentistas, dos promoventes de festivais e, por extensão, a imagem da instituição Cantoria é impetrada exatamente por quem olha de fora pra dentro, e não vice-versa. Por que antes de tal afirmativa quem a faz não acompanha eventos como o 7º Desafio Nordestino de Poetas Cantadores, ocorrido de 09 de novembro a 02 de dezembro de 2007? Por que não confere pessoalmente os grandes festivais de Caruaru, Campina Grande, Patos, Itapetim, Juazeiro do Norte, Pátio de São Pedro-Recife, propondo-se, inclusive, a participar das comissões de seleção de temas e motes, para constatar se improvisamos ou não? Essas cidades e tantas outras realizam anualmente eventos de altíssima qualidade, com repentistas de primeira linha e, o melhor, de Improviso. O entrevistador ainda acrescenta: se você for para um pé-de-parede e não levar um cara que faça canção, o pé-de-parede mingua. Ora, a canção sempre esteve presente nas cantorias, mas nunca foi carro-chefe; é apenas um elemento auxiliar que, é relevante lembrar, substituiu os folhetos de cordel cantados nas cantorias.

A afirmação enfática de que os violeiros estão escrevendo porcaria mais do que as duplas sertanejas é outra generalização infeliz. Quem são esses violeiros, será que são todos? E os admiráveis, de quem são recitadas estrofes antológicas na entrevista, também escrevem essas porcarias? E as duplas sertanejas, será que também são todas iguais? Estão no mesmo saco Zé Mulato e Cassiano e Zezé di Camargo e Luciano, talvez por conta da rima? Seria mais prudente dizer que tanto na cantoria quanto na música sertaneja há coisas boas e ruins, como existem nas outras variantes artísticas.

Não dá pra não mencionar mais um aspecto que me chamou atenção. Ao mesmo tempo em que o repentista é criticado porque canta temas atuais, notícias, etc. também o é porque faz-se poesia popular ainda com os sotaques puristas dos poetas de outras épocas, de outras realidades. E mais: quando refere-se à academia, Ésio ressalta: eu derrubei alguns preconceitos que tinha contra os acadêmicos, porque na realidade eles sabem, são sensíveis, são poetas. Mas os acadêmicos rebuscam seus textos, suas poesias; quando tentam simplificar de mais correm o risco da artificialidade. Seriam, então, eles os poetas? Ou os matutos, iletrados, cabras-da-peste é que os seriam? Sinceramente não concordo que poeta tenha que ser matuto ou intelectual; poeta tem que ser poeta, independentemente do seu grau de instrução. Quando comecei cantar tinha apenas o quarto ano primário. Este ano estou concluindo licenciatura em Letras (português, inglês e francês), pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e não me sinto mais nem menos poeta do que era. O que acho que adquiri foi mais recurso em relação ao uso da língua, o que posso ou não aproveitar para o aperfeiçoamento da produção poética, dependendo da minha capacidade e esforço.

Na verdade, o contexto da cantoria atual atende muito menos às expectativas de alguns "estudiosos da poesia popular". Isso ocorre porque os repentistas, sobretudo os das últimas gerações, têm dado um caráter profissional ao que fazem, não confundindo farra com trabalho, nem incorporando a carcaça de "boêmio" ou "valentão" para atender à especulação folclórica de uma minoria de pesquisadores que procuram mais confirmar idéias pré-concebidas do que investigar a realidade conforme ela é. Em resposta a esse novo momento surge o recurso da omissão. Por exemplo: quando perguntado sobre os novos poetas de Pernambuco, Ésio faz referência a três admiráveis jovens: Marinho, Greg e Júnior do bode. Curiosamente a entrevista fala de poesia popular com foco central nos repentistas. Até onde sei, Marinho é um excelente declamador; Greg, declamador e músico; e Junior do bode, um ótimo cordelista. Entretanto nenhum dos três é repentista, se o for não é profissional.

Obviamente declamação e cordel são estético e historicamente ligados à cantoria, mas não são atividades improvisadas. A propósito, a última pergunta da entrevista, feita por Maria Alice, refere-se ao preconceito dos repentistas para com os cordelistas. É uma inverdade tal afirmação. O que houve no programa do Roger (citado por Ésio) foi um esclarecimento, para aqueles que confundem os dois profissionais, de que cantoria e cordel têm características próprias, por mais que se assemelhem na estrutura física. O cordel é previamente elaborado e para virar cordel, pela tradição do próprio nome, precisa ser publicado; a cantoria é feita de improviso e pode ser transformada em cordel, enquanto que o oposto não pode acontecer; nas cantorias já cantaram-se muitos cordéis e ainda o fazem esporadicamente; o cordel trata de grandes pelejas em cantorias...

Portanto, cordel e cantoria têm uma relação muito próxima, muito familiar, mas definitivamente não são a mesma coisa. Não trata-se de um ar de supremacia dos repentistas em relação aos cordelistas, é apenas um esclarecimento didático para quem coloca essas duas importantes manifestações, que têm vida própria, dentro do mesmo (pre)conceito.

Há outros detalhes da entrevista sobre os quais eu gostaria de me deter um pouco mais, entretanto optei por pontuar apenas os mais relevantes pra não incidir na prolixidade excessiva.

Finalizando, coloco-me à disposição de Interpoética para quaisquer esclarecimentos a esse respeito, pois, na condição de repentista, entendo que o meu papel artístico vai além das fronteiras do ato de improvisar; preservar a imagem da categoria e, acima de tudo, defender a instituição chamada Cantoria é papel que deve ser exercido por quem dela vive.


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1Este artigo é uma crítica à entrevista de Ésio Rafael a INTERPOÉTICA, em maio de 2008.



EDMILSON FERREIRA é repentista profissional e estudante de Letras na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
edmilsonf-santos@bol.com.br
www.edmilsonelisboa.com
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