domingo, 24 de abril de 2011

POETA CASTRO ALVES, O SÃO FRANCISCO

O São Francisco


LONGE, bem longe, dos cantões bravios, Abrindo em alas os barrancos fundos; Dourando o colo aos perenais estios, Que o sol atira nos modernos mundos; Por entre a grita dos ferais gentios, Que acampam sob os palmeirais profundos; Do São Francisco a soberana vaga Léguas e léguas triunfante alaga! Antemanhã, sob o sendal da bruma, Ele vagia na vertente ainda, — Linfa amorosa — co'a nitente espuma Orlava o seio da Mineira linda; Ao meio-dia, quando o solo fuma Ao bafo morto de lia calma infinda, Viram-no aos beijos, delamber demente As rijas formas da cabocla ardente. Insano amante! Não lhe mata o fogo O deleite da indígena lasciva... Vem — à busca talvez de desafogo Bater à porta da Baiana altiva. Nas verdes canas o gemente rogo Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva... E talvez por magia à luz da lua Mole a criança na caudal flutua. Rio soberbo! Tuas águas turvas Por isso descem lentas, peregrinas... Adormeces ao pé das palmas curvas Ao músico chorar das casuarinas! Os poldros soltos — retesando as curvas, — Ao galope agitando as longas crinas, Rasgam alegres — relinchando aos ventos — De tua vaga os turbilhões barrentos. E tu desces, ó Nilo brasileiro, As largas ipueiras alagando, E das aves o coro alvissareiro Vai nas balças teu hino modilhando! Como pontes aéreas — do coqueiro Os cipós escarlates se atirando, De grinaldas em flor tecendo a arcada São arcos triunfais de tua estrada!...
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