quinta-feira, 19 de maio de 2011

O JOVEN ENCACERADO E O CORDEL ENCANTADO



 O Jovem Encarcerado e o
CORDEL ENCANTADO

A cidade grande esconde
Os sentimentos da gente
A ciência avançou muito
Tudo está tão diferente
E nós sentimos saudade
Das coisas de antigamente.

Na cidade de São Paulo
Em noite de muita lua
Esquecidas do barulho
Que se espalha pela rua
A vovó e a netinha
Vivem a noite só sua.

— Se não for pedir demais,
Vovó me conte uma história,
Na qual o amor ao próximo
Seja a coroa da glória
E ajudar a quem precisa,
Ingresso para a vitória.

— Estela, se assim deseja,
Farei o que me compete,
Sem omitir os detalhes,
Tampouco jogar confete
Em quem o destino prende
Pra ser solto por Ivete.

— Vó Juliana, me diga
Como, se não escreveu
As minúcias da história,
Como tudo aconteceu,
Morando aqui em São Paulo,
De nadinha se esqueceu?

— Estela, querida neta,
Tudo que meu pai contou
Quando eu era criança,
Minha mente registrou
E, dessa boa memória,
Detalhe algum se apagou!

Portanto apure os ouvidos
Para ouvir um caso sério.
Uma história comovente,
Marcada pelo mistério,
Cujo teor de verdade
É seu primeiro critério.

Na Bahia, em Banzaê,
Joselito e Carolina
Formavam belo casal,
Gente pacata e grã-fina,
Cuja vida, pouco a pouco,
Lhes foi transformando a sina.

Não havia mais unido,
Mais amigo e solidário.
Reinava a paz em seu lar
Como em algum relicário.
Uma família de Deus,
E da fé, um santuário.

Foram dois filhos na casa:
Aldione era o rapaz
Que, desde seus tenros anos,
Mostrava ser perspicaz.
Sua beleza invejável
Punha Narciso pra trás.

A irmã de Aldione
Foi chamada de Estelita.
Uma dádiva para os pais.
Igualmente tão bonita.
Um par de filhos queridos,
A união era estrita.

A vivência, nesse lar,
Quem a olhasse de perto,
De pronto perceberia
Como tudo era tão certo,
Oásis de comunhão
Neste mundo tão deserto.

Aldione, muito jovem,
Com pouca maturidade,
Tornou-se alvo de olhares
Das mocinhas da cidade.
Pois aquele jovem belo
Seria a felicidade.

O menino, impressionado,
Com isso se divertia.
Moça para namorar,
Ao seu modo, ele escolhia.
E quem fosse preterida
Enciumada vivia.

Já aos dezessete anos,
Era motivo de luta
Entre mulheres vividas,
Fazendo dele disputa:
A virgem, a experiente,
A jovem e a prostituta.

Vivia lisonjeado
No alvor da juventude,
Sem perceber que a disputa
Hoje é leve, amanhã, rude.
Caso saia dos limites,
Leva alguém ao ataúde.

Encontramos Aldione
Com seus dezenove anos,
“Homem feito”, como dizem.
Começando a traçar planos,
Sem saber que o destino
É senhor dos desenganos.

Jovem belo, como disse,
Corre a fama da beleza.
É esta fama, porém,
Que vai lhe trazer tristeza:
A traição é a arma
Que assassina de surpresa.

              Certa mulher, Marieta,
Que, há muito, já tinha ouvido
Falar do jovem Aldione,
Colocou em seu sentido,
Como meta, transformar
Esse príncipe em seu marido.

Dedicou a vida a isso,
Numa busca contumaz.
Correndo atrás do desejo.
Numa obsessão mordaz,
A ética foi esquecida
E a ousadia, sagaz.

Nesse afã de conquistá-lo,
Esforços nunca mediu.
Quem cruzou o seu caminho,
Rapidamente saiu.
Na vala da violência,
Não demorou, sucumbiu,

Aldione, como todos,
Firmou com uma namorada.  
Ele repleto de amores,
Ela toda apaixonada.
Mas, misteriosamente,
Foi a moça assassinada.

Marieta era uma foice  
A preparar seu caminho.
Queria ver Aldione
Desimpedido e sozinho.
O fim justifica o meio,
Cruel, doído e daninho.

O jovem sofreu horrores
Com aquele assassinato.
E, no momento da dor,
Se nos chega um aparato,
Não se rejeita o consolo,
O coração pede trato.

Foi aí, nesse momento,
Que ela se aproximou,
Ofertou-lhe seu carinho,
O rapaz se encantou,
Agradecido e sofrendo,
Com inocência aceitou.

Para envolver Aldione
No seu intento investia.
Mas o rapaz percebeu
Onde aquilo chegaria.
E advertiu Marieta,
Mas ela não pararia.

Não queria desistir
De pescar aquele peixe,
Porém Aldione disse:
— Oh, Marieta me deixe.
Perceba que eu não sou
Garrancho para o seu feixe!

Ao escutar esta frase
Sentiu-se muito ofendida.
Passou a inventar coisas:
— Fui cruelmente agredida! —
Jurou dá uma resposta
Adequada e merecida.

O sentimento nutrido
Por ele no alto pódio,
Daquele dia em diante
Mudou todo o episódio
A ternura que externava
Vestiu a roupa do ódio.

Iniciou a campanha
De torpe difamação.
Arquitetou o seu plano
Na mentirosa invenção
De que se encontrava grávida
E Aldione era o vilão.

E engravidou, de fato,
Pensando de assim fisgá-lo,
Mas é corrente no mundo
Ditado que é bom citá-lo:
Quem pensa em montar na égua,
Pode cair do cavalo.

Porque quem a emprenhou
Não suportou a mentira.
Tanta calúnia inventada
Pondo Aldione na mira
Destas três forças mundanas:
Vingança, ciúme e ira.

Pois o rapaz, comovido,
Contou a farsa montada
Para prender Aldione
Nas cordas dessa emboscada.
E quem já pouco valia,
Passou a não valer nada.

— Oh, vovó! Esta mulher
Era uma louca varrida.
Inventar tanta artimanha
Para complicar a vida
Do pobre do Aldione.
Que alma mais aturdida!

— Nem me fale, minha neta.
Essa bruxa Marieta,
Nos rumos do acontecido,
Praticará mais mutreta
Escrevendo a sua história
Com tinta de vil caneta!

Havia naquelas terras
Um certo João Amoroso,
Praticante da magia,
Um homem misterioso
Que todo mundo dizia
Ter parte com o Tinhoso.

Carregava para si
Nome paradoxal
Pois se chamar Amoroso
E vender-se para o Mal
É contrasenso, mas era
A descrição do real.

— Senhor João, eu necessito
Executar um serviço
Contra alguém que amo tanto
E desejo dá sumiço
Por rejeitar-me no amor.
Quero que pague por isso!

— Marieta, tal ação
Não deve ser cometida
Causará dores em todos,
Marcará a sua vida.
Abro, nele, a sepultura
E em você, a ferida!

— Se me causar uma chaga,
Depois vem a cicatriz.
Sem Aldione não posso
Nesse mundo ser feliz.
Ninguém mais deverá ver
De sua beleza o triz!

Quero que o senhor o feche,
Como louco, aprisionado,
Numa gruta onde não seja
De modo algum encontrado.
Não deve morrer, mas pague
A culpa do seu pecado!

— Menina, repense bem
O ódio que traz no peito.
Depois da magia feita,
Aí, não terá mais jeito,
Pois o que fiz até hoje
Não vi passar o efeito!

— Já pensei e decidi.
Atrás eu não voltarei.
Ficar sem ele é a sina
Com a qual já me conformei.  
Como não ficou comigo
Para ninguém deixarei!

Pagou a soma devida,
Na mesma hora e saiu.
Não demorou muito tempo
E Aldione sumiu.
Não deixou rastro, nem pista.
O encanto se cumpriu.

A polícia foi chamada,
Investigou bem o fato.
Depoimento e pesquisa,
Oitiva, busca e relato.
Só Marieta sabia
Daquele mágico contrato.  

Espalharam-se cartazes
Buscando esclarecimento.
O pai, aflito, esperava
Achá-lo a qualquer momento
E o povo todo intrigado
Frente ao acontecimento.

Estelita em desespero
Pranteava a amargura.
Reclamava até com Deus
A terrível desventura
De suportar a ausência
Inesperada e tão dura.

Carolina, a mãe sofrida,
Com o choque adoeceu.
Acometeu-lhe um derrame
Cuja sequela se deu
Por todo seu lado esquerdo
Que toda função perdeu.

Enquanto seu Joselito
Sofria tudo calado.
Não porque sentisse menos
Ou fosse despreocupado,
Tinha de tocar a vida
Naquele lar abalado.

O tempo soterra tudo,
Ficando só a notícia.
Na casa de Marieta
Também foi feito perícia
Dois anos depois se encerra
O caso pela polícia.

— Oh, vovó, eu imagino,
Da família, a agonia,
Do desaparecimento,
Não se ter notícia um dia.
Será que a Marieta
Por dentro não se doía?

— Estela, quando alguém morre,
Deus logo dá o conforto,
Porém, se desaparece,
Causa doloroso horto.
Ante a dúvida do sumiço,
Queira a certeza do morto!

Mas deixa eu voltar ao caso
Do sumiço deletério
Que pôs fim a Aldione:
O pai, sem um refrigério,
Dá o seu filho por morto,
Sem corpo no cemitério.

Seu Joselito, uma noite,
Sonhou espantoso sonho.
Imaginava seu filho,
E o pensamento tristonho
Levou-o pelo labirinto  
De pesadelo medonho.

Aquela visão onírica
A Joselito assustou.
Levantou sobressaltado,
Caneta e papel pegou,
De tudo que se lembrava
Com cuidado ele anotou.

Passou o dia pensando
Nessa noite mal dormida.
A ausência de Aldione
Tirou-lhe o prazer da vida,
Mas o tumulto da noite
Reabri sua ferida.

A ninguém compartilhou
O sonho tão diferente.
E adormeceu esperando
Vir o sonho novamente.
E de fato confirmou-se
Aquele grande presente.

Joselito amanheceu
Radiante de alegria.
Estelita percebeu
Diferença nesse dia
Devido a leve sorriso
Em quem fechado vivia.

— Papai, vejo que o senhor
Acordou com esperança.
Não sei se é, mas me diga:
Já apagou a lembrança
Do meu irmão Aldione?
Tá com alguma confiança?  

— Querida filha, é por ele
Que melhor amanheci.
Durante o sono noturno,
Um alento eu recebi:
Vi Aldione bem vivo
E logo estará aqui!

— Quisera, papai, que fosse
O seu retorno exeqüível.
Após o tempo passado
De fato seria incrível
Encontrar meu lindo irmão,
Porém é quase impossível!

— Oh, filha, alimente a fé.
Creia mais e se anime.
Na época em que ele sumiu  
Não foi confirmado o crime
E a bondade de Deus
Nem brincando subestime!

E pela terceira noite
Vai Joselito risonho
Dormir esperando novas
Daquele caso medonho
Esperando confirmar-se
O seu imbricado sonho.

— Oh, vovó, a Estelita,
Melancólica a vida segue,
Nem mesmo o ânimo do pai
Aquela menina ergue.
Sem o seu irmão querido
Alegrar-se não consegue!

— É verdade, minha neta,
Porém, quando Deus promete
Um milagre a quem espera,
Faz tudo que a Si compete.
Ainda mais quando envia
A inesperada Ivete!

Um mês após Joselito
Ter sonhado com a mensagem,  
Apareceu uma moça
Mostrando muita coragem,
Sabendo o nome de todos
Quando apeou da viagem.

— Um dia eu fiquei sabendo
Da dor que a família passa
Pelo seu filho sumido
E a dúvida que ameaça.
Vim aqui para ajudá-los
Se Deus me der esta graça!

— Todos nós lhe agradecemos
O carinho e a gentileza.
Se propor a tal missão
É sinônimo de grandeza.
Sei que encontrará meu filho,
Deus confirmou a certeza!

Por isso lhe enviou
Para cumprir o projeto
Do qual Ele é o autor
E revelou-me completo,
A fim de executá-lo,
Como manda o Arquiteto!

Nessa visão que eu tive,
Quem a provocou revela
Que só salvará meu filho
Uma moça inda donzela,
A qual homem nenhum tenha
Ainda tocado nela!

Aldione se encontra
Em uma gruta, encantado.
Como resgatá-lo eu sei:
Só depois de ser achado
Um cordel onde se esconde
O segredo bem guardado!

— Onde seu filho se encontra?
Me diga, que buscarei?
— Pode confiar em mim.
Na hora certa eu direi,
Antes me dê as respostas
Das perguntas que farei.

— Revele se já deitou
Com algum homem na vida?
— De jeito nenhum, senhor,
Por favor, não me agrida,
Deus por certo é testemunha,
Eu sou virgem guarnecida!

— Se come carne vermelha,
Até mesmo por engano?
Porque, para executar
Esse audacioso plano,
Não deverá ter comido
Essas coisas há um ano!

— Senhor Joselito, afirmo,
Carne jamais eu comi.
Ela tira o equilíbrio
Natural, já percebi,
Dizem ser bom pra saúde,
Nunca usei e não morri!

— Desse jeito se encontra
Preparada pra viagem.
Encontrará o cordel
Numa famosa paragem,
Em solo paraibano
Dono de bela paisagem!

A luta pelo folheto
Não será descomunal.
Ele está em Araruna,
Em lugar especial,
Chamado Pedra da Boca,
Que é um Parque Estadual!

Trezentos e trinta e seis
Metros tem de altura.
É a formação rochosa
De mais possante estrutura.
Difícil de escalar
E chegar à embocadura!

Ao se elevar na paisagem
A pedra vira um mirante.
Ivete, vá bem tranquila,
Bem formosa e elegante.
Procure e encontrará
O cordel desencantante!

Dez dias de caminhada
Foi o tempo da viagem.
Procurou pela moringa
Continente da mensagem
Que salvaria Aldione
Com uma nova roupagem.

O recipiente achado
Trazia pequenos danos,
Como que alfinetando
Pesquisadores praianos
Que dão a paternidade
Do cordel aos lusitanos.

Ela retornou trazendo
A chave do encantamento.
Fechado como encontrou,
Transportou aquele invento,
Causando em seu Joselito
O maior contentamento.

O bem sem fazer o mal,
Do mal feito ele se vinga,
Joselito tendo em mão
O prêmio bom da caatinga,
Disse: — Salvarei meu filho
Através dessa moringa!

Nisso, imediatamente,
Escondeu aquele achado
Porque só podia abrir
No dia determinado.
Para quebrar o encanto,
Com o Cordel Encantado.

Ninguém além de Ivete
Leria aquele cordel.
Nem mesmo ao pai do rapaz
Competia este papel.
Fazia parte do plano
Ser com o plano fiel.

Ivete se perguntando:
— Onde estará escondido
O rapaz enfeitiçado,
Há tanto tempo perdido?
Como estará seu corpo,
Conservado, envelhecido?

Calmamente respondeu-lhe:
— Filha, tenha paciência,
Que na hora oportuna
Revelarei com ciência
Aonde está o menino,
Motivo da incumbência!

Você irá libertá-lo
Dessa nefasta prisão.
Trazer meu filho de volta
Pôr fim a esta agressão,
Sarar as nossas feridas
Abertas no coração!

No dia estabelecido
Pelo sonho revelado,
Joselito chama Ivete.
Todo o plano é explicado,
Quebra a moringa e lhe entrega
O tal Cordel Encantado.

— Ivete, agora, a tarefa
É ler com todo cuidado,
Prestando muita atenção
No seu enredo intrincado.
Com este livro divino
Salvarei meu filho amado!

Segundo o sonho, você
Vai ter que ficar trancada
No quarto por sete dias
Em silêncio, concentrada,
Lendo o cordel sete noites
Às quatro da madrugada!

De dia também lerá
A obra sem ter alarde.
Como às quatro da manhã,
Lerá às quatro da tarde,
Descortinando o impasse
Feito por algum covarde.

Durante estes sete dias
Deve comer só verdura,
Sem exagerar em nada
A fim de se manter pura,
Diminuindo o estômago,
Alimentando a cultura.

Na primeira madrugada
O cordel inteiro leu,
Falando em filosofia,
Na mente lhe veio um breu,
Leu as duzentas estrofes,
Mas nada compreendeu.

Na tarde do mesmo dia
Um novo ciclo completa.
Ivete releu a obra
Daquele anônimo poeta
E as dúvidas intrigantes
Deixam a cabeça repleta.

Após leitura apurada,
Deitou-se para dormir.
Mais confusa do que antes
Ponderou em desistir,
Trancado o quarto por fora
Não tinha como sair.

Dormindo o tempo é tão rápido,
O galo canta apressado.
Volta a ler aqueles versos,
Mas sem qualquer resultado.
Quanto mais lê, não entende
O enredo complicado.

Na compreensão do todo
Daquele texto confuso
Por demais enigmático,
Furando igual parafuso
E o cérebro de Ivete
Foi se sentindo um intruso.

No segundo dia, à tarde,
Começa a quarta leitura,
Até o meio do cordel
A grande dúvida perdura,
Entretanto no final
Muda a coisa de figura.

Como não podia ler
Antes da hora marcada,
Dormiu para descansar
Pois logo, na madrugada,
Faria a quinta leitura,
Mais atenta e apurada.

Nas primeiras cem estrofes,
Três somente dão sinais
De trazer, no meio delas,
Descrições especiais,
Detalhadas descrevendo
Os pecados capitais.

Leu o restante do livro,
Porém nada percebeu,
No entanto aquelas três
Ofuscaram o sono seu,
Esperando até à tarde
Quase que endoideceu.

Relendo compenetrada,
Um outro pecado achou,
Se dos sete a maioria
Ivete agora encontrou,
A chave da porta estreita,
Pouco a pouco desvendou.

De madrugada releu
Aqueles versos rimados.
Os mistérios do além
São mesmo assim complicados.
Se havia encontrado quatro
Por que três eram negados?

Pela oitava e nona vezes
Mergulhou naquele texto,
Sem achar o que faltava,
Em meio a todo contexto,
Gerando em sua cabeça
Toda espécie de pretexto.

Sete dias, duas vezes,
Eram quatorze leituras.
Se não descobrisse os sete
Pecados, nessas alturas,
Naquela pobre família
Permaneciam as agruras.

Fez a décima leitura,
Mas o pecado se esconde.
Ivete implora a seu Deus:
— Por favor, revele onde!
Na décima primeira lida
O Universo a responde.

Mais um pecado notou
Depois de tanto ter lido.
Agora, muito cansada
De apurar o sentido,
O tempo contando as horas
Sem a missão ter cumprido.

Décima segunda leitura,
Outro pecado aparece
Escrito nas entrelinhas.
A Deus, contente agradece,
Faltando somente um,
Pelos quais faz uma prece.

— Senhor, só me falta um dia
E assim eu concretizo
Essa tarefa pesada,
Para a qual peço e preciso
Sabedoria e atenção
Redobrados no juízo!

Dia sétimo, quatro horas
Da manhã, ela começa,
Sua penúltima leitura
Sem ter o mínimo de pressa.
Quer desvendar o segredo
E cumprir sua promessa.

Não consegue desvendar,
Foi em vão a nova busca.
Ficando mais temerosa,
Sua missão se ofusca.
Na falta de um pecado
A tormenta lhe é brusca.

Das quatro da madrugada
Até às dez da manhã
Leu o texto lentamente,
Concentrada no afã
De encerrar sua luta,
Porém a busca foi vã.

Tristonha e desesperada,
Chorou compulsivamente,
Pois só faltava uma vez,
A décima quarta somente,
Capaz de trazer o jovem
Do passado ao presente.

Procurou se acalmar,
Afugentar logo o medo,
Nosso pior inimigo
E condutor ao degredo,
Que faz forte ficar fraco
E procurar arremedo.

Queria mesmo que o tempo
Naquele dia parasse,
Assim ganharia fôlego
No meio daquele impasse.
Para assim no tempo certo
Tudo se descortinasse.

As quatro horas da tarde
Chegaram de forma atroz,
E já tomavam seu trilho
De correnteza veloz.
Na angústia vem o grito
Para quem não tem mais voz.

Pela décima quarta vez
Ivete voltou a ler
O mesmo cordel, tentando,
Com muita força e querer,
Colocar um fim na luta,
Encerrar seu padecer.

Adotou outra postura,
Lendo o cordel com argúcia,
Conteve a ansiedade,
Aplicou bem mais astúcia,
Mergulhou nas estrelinhas
Do texto com mais minúcia.

O tic-tac do tempo
Seu trabalho emoldurou.
Na centésima nona estrofe
Foi ali que encontrou
Os derradeiros sinais,
Emocionada chorou.

Pausou a sua leitura
Do resto quis esquecer,
Mas lembrou-se da promessa,
Do mal que iria fazer
Se não lesse até o fim,
Poria tudo a perder.

Não teria serventia
Todo o esforço empenhado.
Sem contar que Aldione
Ficaria aprisionado,
E perderia importância
Nosso Cordel Encantado.

Ivete revigorou-se
Com a tarefa cumprida.   
Chamou senhor Joselito
Pra tirá-la da guarida,
Do quarto em que estava presa,
Após etapa vencida.

— Vovó, estou curiosa.
Resuma e selecione
A parte mais comovente
Para que me impressione.
Foi decifrado o cordel
E onde estava Aldione?

— Espere, Estela, querida.
Deixe de ansiedade,
Se me atrapalhar de novo,
Deixarei pela metade.
Não quer saber o que houve?
Não tem curiosidade?

Ivete foi descansar
Após o confinamento,
Refazer as suas forças,
Perdidas naquele evento,
Para voltar à labuta
E completar seu intento.

Saber esperar é bom.
Cultivar a paciência
Faz a pessoa pensar,
Medir bem a conseqüência.
A pressa também é a mãe
De atos de violência.

Passado um mês mais ou menos,
Seu Joselito anuncia
A Ivete outro destino
Que ela desconhecia:
O lugar Paripiranga
No estado da Bahia.

— Ao chegar por lá, Ivete,
Pergunte a um morador
Qual a localização
Da Caverna Bom Pastor.
Siga ao encontro dela
Com astúcia e destemor!

Se alguém, por acaso, achar
A sua busca esquisita,
Diga que é peregrina
E ouviu dizer que é bonita.
Por isso deseja tanto
Fazer-lhe uma visita!

O guardião da caverna
É um sujeito espontâneo.
Vai lhe fazer mil perguntas
Em um efeito instantâneo.
Diga que é pesquisadora
Do mundo subterrâneo!

Explicou tudo a Ivete
Como devia fazer.
Quando encontrasse o sinal,
Começasse logo a ler
As estrofes do cordel
Para o encanto acontecer.

Foi difícil convencer
O teimoso zelador.
Entrar desacompanhada
Era o ponto divisor
Pois não se entra sozinho
Na Caverna Bom Pastor.

Desceu o caminho íngreme,
Deslumbrada, observando
Toda formação rochosa
Por ali lhe rodeando.
Uma forma de janela
Ela estava procurando.

Levava os equipamentos,
Entre eles, uma lanterna
Daquelas profissionais,
Dentre todas mais moderna,
Tão forte que clareava
O recôndito da caverna.

A luz forte revelava,
Na parede, uma inscrição
Ou qualquer desenho feito
Que lhe desse a impressão
De ser alguma passagem
Ao centro de uma prisão.

Pacientemente, Ivete,
Não caiu no desespero,
Tampouco perdeu a linha.
Refinou o seu tempero,
Apurou seu equilíbrio,
Fugiu a todo exagero.

Baixou a luz da lanterna
Para poder ver melhor.
Estava ferindo os olhos
E provocando suor.
Seria mais confortável
Um facho de luz menor.

Com a nova regulagem
Começou a esquadrinhar
O interior da gruta
Com um cuidado exemplar,
Esperando em cada fenda
Uma janela encontrar.

Muitas estalactites,
Vinham do teto rochoso,
Produzindo sombras tortas,
No mundo maravilhoso
Cuja ilusão deixava
Seu coração receoso.

Passou mais de quatro horas
Toda a gruta vasculhando.
A bateria da luz
Já estava se acabando
E o calor vindo da terra
Pouco a pouco ia aumentando.

Um pouco de distração
E a lanterna escapuliu.
O feixe de luz parado
Na parede refletiu,
Iluminando um quadrado
E foi ali que ela viu.

Quase apagada na rocha
A forma de uma janela.
Pensou consigo, surpresa:
— Seguramente é aquela.
A estrutura de pedra
Na qual se esculpiu a cela!

Observou, cautelosa,
O formato do desenho.
Aproximou bem a luz.
Clareou, franzindo o cenho:
— Eis aqui a abertura.
Nela, agora, me empenho!

Bebeu um pouco de água,
Sentou-se no chão da gruta,
Respirou pausadamente,
Ganhando força pra luta.
Era a dama astuciosa
Contra a grande pedra bruta.

Retirou de sua bolsa
O envelope guardado,
Onde estava a esperança
Do jovem encarcerado.
Leria só sete estrofes
Do seu Cordel Encantado.

As sete estrofes marcadas
Ao certo correspondiam
A cada uma das janelas
Que, na certa, se abririam
Após cada estrofe lida
E ao jovem libertariam.

Se acaso errasse na ordem
A janela lá ficava.
Sete chances cada uma
Daquelas janelas dava.
Eram sete tentativas
Para ver se acertava.

Ivete foi se enervando,
Suando frio e demais.
Grande responsabilidade,
Como não se viu jamais.
Assim começa a leitura
Dos pecados capitais.

Não desejo bens alheia,
Estou bem com o que é meu.
Se preciso de algo, busco.
Devolvo se alguém perdeu.
E assim não sinto inveja,
De rico nem de plebeu.

A janela ficou fixa,
Nem um abalo sentiu.
Não correspondia à inveja,
Por isso ela não caiu.
Ivete não perdeu tempo
Doutra estrofe prosseguiu.

O olho quanto mais vê
Muito mais se estimula,
Mesmo de estômago cheio
Se cozinha e se acumula.
Triste do homem que vive
Sob o domínio da gula.

Logo que a palavra gula
Ouviu-se pronunciada,
A janela feita em rocha,
Dentro da pedra instalada,
Desmoronou na caverna
Em poeira transformada.

Não quero juntar tesouros,
Nem excesso de riqueza.
A vida material
Não é minha realeza.
Não acordo como escravo,
Não durmo com a avareza.

Nem bem terminou de ler
E a mágica aconteceu.
No coração de Ivete
Uma certeza cresceu
Em pouco tempo teria
Findado o trabalho seu.

A simplicidade é dom
De quem não planta lamúria.
Ao vencedor, o carisma
Atravessando a penúria.
Feliz de quem não se enrosca
No desprazer da luxúria.

Estremeceu a caverna,
Caiu mais uma janela.
Como um pote de açúcar
Que no chão se esfacela,
Ivete cumpria os passos
Com euforia e cautela.

Todo coração bondoso
Não pode ter vaidade,
Essa força que atormenta
Quase toda a humanidade,
Fazendo muitos perderem
Sua própria identidade.

Com esse quinto pecado
Ruiu o quarto obstáculo.
Como se não fora preso
Em qualquer receptáculo.
Era o Cordel Encantado
Pela boca de um oráculo.

Em tudo que for fazer,
Aguce o faro e a mira.
Recolha tons mais alegres
Por dentro da vida insira,
Retire todo resquício
Dos malefícios da ira.

Foi bastante para à frente,
Ver a poeira caindo,
O que antes foi janela
Agora é pó se esvaindo.
Quem olhasse de relance
Veria Ivete sorrindo.

O corajoso não teme
O labor como premissa.
Ganhará o ouro em vida
De forma plena e castiça.
Não será sujeito à pressa,
Nem louvará a preguiça.

Alcançou o sexto êxito,
A sétima estava segura.
Leu a estrofe da inveja
Pediu a Jesus postura,
Sabedoria e bom senso:
Fechou-se a tarefa dura.

Havia, porém, a última
Janela a ser destruída.
O segredo era escrever
Sextilha bem construída
Que contemplasse em resumo
Os sete atrasos da vida.

Ou seja, os sete pecados
Numa estrofe sem igual,
Com oração, rima e metro,
Na senda cordelial,
Para jogar todo encanto
Sobre a janela final

Vim despida de vaidade,
Sem inveja, sem preguiça,
Sem gula,  sem avareza,
Sem luxúria que enfeitiça,
Sem ira que contamina,
Querendo apenas justiça.

Ficou um breve silêncio,
A janela estremeceu,
Mas não caiu, devagar
Foi que a parede cedeu
E Aldione liberto
Na caverna apareceu.

Dez anos foram passados,
O tempo do encantamento.
Foi um trabalho bem feito,
Causador de sofrimento,
Mas não sofreu Aldione
A dor do envelhecimento.

O tempo lhe foi suspenso
Nos anos trancafiado.
O seu semblante era o mesmo
De quando fora encantado
Porque as chamas das rugas
Não tinham lhe chamuscado.

Ivete ao ver Aldione
Foi tomada de alegria,
Abraçou-o como quem
Abraça o raiar do dia
Que traz a luz da manhã
Nas asas da fantasia.

Trocaram poucas palavras,
Porém os seus corações
Sentiram de cada lado
Dois pequenos beliscões
Era um recado da Vida
Unindo os dois campeões.

Empreenderam a volta,
Encontrar seu Joselito.
Este, ao avistar de longe,
O seu filho tão bonito
Deu um sorriso contente,
Furando o céu com um grito:

— Carolina, minha esposa,
O nosso filho voltou
Para nos fazer felizes.
O encanto se quebrou
Com o Cordel Encantado.
O sofrimento acabou!

À visão do filho vivo,
Ajoelhou-se dizendo:
— Deus me faz acreditar
No que agora estou vendo.
Bendito seja meu Deus
Por tudo que estou vivendo!

Estelita, de um salto,
Partiu logo em disparada.
Veio abraçar o irmão,
De alegria coroada.
Vestida na emoção
De choro, grito e risada.

Foi lindo aquele momento.
Não posso nem descrever,
A família reunida
Tendo de volta o prazer
De juntar os quatro membros
E acabar o sofrer.

Por horas naquele estado
Os quatro permaneceram.
Matando a grande saudade,
Contando como sofreram.
Tanto eles como Aldione
Sofrimentos padeceram.

Aldione lhes contou
Que não foi fácil ficar
Imóvel naquela gruta
Sem poder se libertar,
Em um estado de vida
Impossível de explicar.

Dona Carolina pede
Ao seu amado marido
Para contar-lhes o mistério
Como tinha acontecido:
Descobrir onde seu filho
Fora trancado e perdido.

Narrou-lhe os sonhos que teve,
Como fora revelado,
Por um ser vestido em ouro,
O segredo detalhado
Do poder miraculoso
De um Cordel Encantado.

Revelou que esse cordel
Contava poderes santos.
Tinha o poder de quebrar
Feitiços, males e encantos,
Além de curar enfermos
Salvando-os de seus quebrantos.

— Por isso mesmo, agora,
Vamos cumprir o exame!
Pegou o cordel e disse:
— Leia alto, creia e clame.
Implore a quem poderá
Curá-la do seu derrame!

Feliz da mulher que é forte
E de Deus nunca duvida.
Pegou o folheto e leu
Confiante, agradecida,
Chegando à última estrofe,
Havia refeito a vida.

Estelita também leu
E toda maldade herdada
Do sumiço do irmão
Na hora foi retirada.
A família novamente
Fora feita abençoada.

Àquele lar retornou
A alegria e a paz.
Quem soubesse da história
Depressa corria atrás
Para constatar e ver
Desencantado o rapaz.

Passou-se um mês bem contado,
Ivete já ia embora
Quando Aldione lhe fala:
— É chegada a nossa hora.
Meu coração lhe pertence,
Venha ser minha senhora!

Desde a caverna esquisita
Que seus corações falaram,
Agora chegou a vez,
Os dois jovens se beijaram.
Por causa desse cordel
As vidas se transformaram.

No dia do casamento,
Foi grande a festividade.
Compareceu ao enlace
Todo mundo da cidade
Homem, mulher e menino
De todo jeito e idade.

E Marieta onde anda?
Você nem me perguntou.
Sumiu no oco do mundo
Desde que o jovem voltou
Ninguém sabe, ninguém viu
Uns dizem que se encantou.

Todo mundo em Banzaê
Conhece o fato passado
Do jovem que viveu preso
Dentro da rocha enterrado
Que foi solto por Ivete
Lendo o Cordel Encantado.


Josué de Nazaré
Varneci Nascimento
São Paulo 06/01/2011.

Cordel enviado pelo o meu amigo cordelista Josué Goançalves de Araújo.
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