terça-feira, 20 de novembro de 2012

MULHER MUSA E COMPANHEIRA

Opinião

Mulher: musa e companheira
Adalberto Targino
ceaf_pge@rn.gov.br

O pensamento "por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher", retrata uma realidade comprovada, aqui e alhures. É, igualmente, verdade que na vida de um homem infeliz, perplexo com a existência, mal sucedido no campo social e profissional, há quase sempre uma mulher que lhe inferniza a vida, lhe corrói a alma e lhe debilita a inteligência e a fonte energética da existência. Sem dúvida, não há gigante nem pigmeu que resista à força interior e intuitiva de uma mulher; a sua beleza (física e intelectual), a sua sensibilidade, mesmo sem ser Dalila ou Cleópatra, poderá domar, persuadir e dirigir as decisões e criatividade dos poetas, músicos e compositores e até dos Sansões e Césares do mundo moderno.


Neste universo, basta que se folheiem as páginas da história; a mulher tem motivado guerras e trazido a paz e, principalmente, inspirado gênios nas suas monumentais obras de arte e criações literárias... Tem sido a musa inspiradora, sem a qual o espírito criador não é provocado. A colaboração dela não é somente de ordem material, mas, essencialmente, de natureza afetiva e emocional. "É o agente provocador do gênio artístico": sem ela as grandes obras não seriam tão magníficas e imorredouras, porque elas, quase sempre, são realizadas no arrebatamento das grandes paixões, no êxtase frutificador dos verdadeiros amantes ou na quietude do lar.

Dentre tantos gênios motivados pela sensibilidade feminina, descarei Beethoven que, quando se enamora de Julieta Guicciardi, compõe a "Sonata", Op. 27; depois de apaixonar-se por Josefina Brunswick nos presenteia com a transcendental 3ª Sinfonia, "A Heróica", a 4ª Sinfonia e a Sonata Op. 57, "Apaixonada", a 5ª e a 6ª Sinfonia, "A Pastoral", ainda o iluminado mestre, depois de ligar-se a Betina Bretano, nos brinda com a 7ª Sinfonia, "Dança", bem como a "Sonata a Kreutzer". O que dizer das inspiradas composições do sempre aplaudido Roberto Carlos sem o anteparo de suas companheiras Nice e Maria Rita? E o nossos poetas Vinícius de Moraes, Junqueira Freire com os seus inúmeros amores e até Olavo Bilac com as suas paixões platônicas?

Dessa relação imensurável, figuram pensadores de todas as matizes e nacionalidades, como, por exemplo, Franz Liszt que, unindo-se à condessa de Agoult, compõe grandes obras e, posteriormente, em Weimar, na companhia da princesa de Wittgenstein, cria "O Tasso", "Os Prelúdios"; e Chopin, com os seus romances pouco convencionais, também produziu músicas eternas. 

Os poetas, por serem profundamente sensíveis e terem no amor, no sofrimento e na paixão, o alimento maior de suas inspirações, como já foi dito, não fugiram à regra: a mulher é o horizonte, a fonte, o símbolo dos mais belos poemas, sonetos e quadras dos maiores e melhores vates, repentistas e menestréis. Aí inserem-se Dante, cujo amor por Beatriz, fortaleceu o seu gênio poético, "Dama Ditosa" que o marcou aos nove anos e que, falecida, foi reencontrada, em "Vita Nuova" e na "Divina Comédia". Goeth, que se inspirou em várias mulheres, dentre as quais, Lili Schônemann e Charlotte de Stein. Como revelam "Os Sofrimentos do Jovem Werther" e outras manifestações pessoais e literárias do inimitável vate. Além desses exemplos universais, tivemos, no Brasil, o paradigma de amor-paixão vivido pelo condoreiro Castro Alves que, sem a sua musa Eugênia Câmara, pouco teria produzido para a literatura brasileira.

É inegável a contribuição da mulher na formação do imenso e fulgurante patrimônio artístico, de imensurável valor estético, histórico e cultural, existente no Brasil e no mundo, como a apoteótica beleza do arco-íris, a marcar o tempo não pelas datas, mas pelas mulheres que viveram em cada tempo.

Enfim, para se ter uma idéia da influência (boa ou má - não importa!) da mulher na vida dos artistas, pensadores, líderes, basta que se leia a biografia dos artistas mencionados ou de Rousseau, Sartre, Victor Hugo, Rui Barbosa, Getúlio Vargas, Akinaton, Roosevelt, Hitler, Napoleão, Sansão, Shakespeare, Davi, Salomão, Júlio César, Sócrates, Montaigne, Camões, Schopenhauer, Kubitschek, Perón, Pedro I e as iluminadas palavras do genial Gibran ao escrever para Mary Haskell: "Tantos homens perecem por lhes faltar alguém como tu para salvá-los". Ainda o insigne pensador oriental, ao sentir tempestuosa paixão por Micheline, embora com separação e sofrimento, foi quando produziu os mais belos pensamentos sobre o amor, como este, contido no seu mais famoso livro, "O Profeta": "quando o amor vos chamar, segui-o, embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos".

Adalberto Targino, procurador do Estado e membro catedrático da Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas, colabora aos sábados.

Capitães da Areia

Frederico Horie Silva
fredericohorie@yahoo.com.br

Há pouco tempo li o belíssimo livro "Capitães da Areia" de Jorge Amado, que narra a vida de crianças e jovens que vivem nas ruas de Salvador dos anos 30. A maioria das crianças que ali aparece são orfãos de pai e mãe, não frequentam a escola e não sabem ler ou escrever. Vivem do roubo e do furto, e já passaram por mais dificuldades e tristezas que os seus poucos anos de vida permitem. Têm em comum a malandragem e uma mistura de rancor e ódio frente ao mundo e às pessoas.

Não é só nesta obra prima que encontramos crianças nesta situação. Se focarmos apenas a questão educacional, nosso país ainda possui 3,8 milhões de crianças e jovens de 4 a 17 anos fora da escola, de acordo com o monitoramento feito pela ONG Todos pela Educação com base nos dados demográficos e no Censo Escolar de 2010. É muita gente inocente sem acesso à educação formal.

O livro de Jorge Amado é estruturado em diversos capítulos, que contam a história de cada um dos personagens que compõe ogrupo dos Capitães da Areia. Em um dos capítulos mais emocionantes, o autor narra a história do "Sem Pernas", garoto de 13 anos que recebera o apelido por possuir um defeito genético em uma das pernas. Sob o pretexto de ser uma criança aleijada que acabara de perder a mãe, esfomeado e necessitado de um local para passar a noite, ele penetrava na casa de famílias ricas e identificava a localização de objetos de valor, bem como de rotas de entrada e saída que pudessem ser usadas pelos seus colegas de grupo. Passados alguns dias, ele abandonava a família, que posteriormente tinha seus pertences mais valiosos roubados pelos Capitães.

Sem Pernas era um dos mais destemidos e agressivos do grupo, aparentemente desprovido de qualquer sentimento de compaixão, tinha muito prazer em imaginar a face de cada um dos familiares ao descobrir que aquele "aleijado e maltrapilho" fora o responsável por arquitetar todo o plano de roubo. Ele repudiava as famílias que, por pena, o aceitavam dentro de suas casas, mas o tratavam comindiferença e desprezo, contando as horas para vê-lo fora de suas residências.

Em um dos planos de roubo, Sem Pernas entrou na casa de um casal de idosos que, diferente de outras famílias, o tratou bem, com paciência, com carinho, como gente. Ele tomou banho, vestiu as roupas que foram do filho do casal, e teve o cabelo penteado com brilhantina pela empregada. Pela primeira vez sentiu vontade de olhar para um espelho, e ele já não era mais o aleijado e ladrão, ele era... um menino normal.

O casal tratou-o como parte da família, e passaram a fazer parte do seu cotidiano quatro refeições diárias, passeios ao parque, filmes no cinema e brincadeiras infantis. Começou mesmo a aprender a ler, ao se encantar por um livro de gravuras que não largava por nada. O tempo passava, e ele evitava ao máximo o contato com os Capitães da Areia. Aquilo tudo era novidade, e sem Pernas desejou que o casal o tratasse mal, que o despisse daquelas roupas e o expulsasse de casa. Ele não se sentia digno daquela família que o acolhera como um filho, e o menino que nunca chorava, chorou, pois não sabia se abandonava os Capitães da Areia e vivia para sempre com aquela família, ou se cumpria com sua palavra perante o grupo de colegas, que até então haviam sido os únicos a tratá-lo com respeito e dignidade.

Independente do desfecho da história - aos que gostaram recomendo a leitura do livro - gostaria de evidenciar que o menino não precisava de rótulos, e muito menos que o tratassem como um "pobre coitado", precisava que o enxergassem como um cidadão, privado dos seus direitos básicos como moradia, alimentação e escola.

As necessidades de uma criança em condições como a descrita, perpassam o alcance da educação formal, mas não eliminam sua influência e o seu papel central no combate à miséria. A escola pode ser um espaço de acolhimento, de socialização, de convivência com a as diferenças e de aprendizados que extrapolam o currículo formal.

Como os Capitães da Areia, são quase quatro milhões de crianças e jovens que estão fora da escola quando deveriam estar aprendendo dentro dela. Uma escola pública de qualidade deve fornecer bons modelos e boas práticas para as crianças e jovens, constituindo uma fonte rica de aprendizados, que podem contribuir para melhoria do presente e do futuro deles e da nossa sociedade.

Frederico Horie Silva, Educador e Biólogo, escreve a convite do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), que publica artigos neste espaço às sextas-feiras. 

Fonte:
www.diariodenatal.com.br

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