segunda-feira, 13 de julho de 2015

Sanfona pode custar mais de R$ 20 mil na única fábrica do Nordeste


Amazan Silva conta como o instrumento mudou sua vida. Sanfona é quem dá o tom e sustenta muitos brasileiros, como a família Alves há quatro gerações.

O som vem de longe, e a música dá o sinal. O arrasta pé já começou! E a grande estrela dessa festa a sanfona, que encanta o Brasil nessa época, toca o coração dos nordestinos o ano inteiro. Tudo começou com o forró pé-de-serra, feito para os casais dançarem agarradinhos. Das casas simples do sertão, o forró conquistou as grandes cidades. O ritmo movimenta a economia e agita o mercado de trabalho.

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E o palco mais popular são as casas de reboco.
“Geralmente, a sala de reboco. Ela remete mais àquele caboclo que juntou os amigos pra rebocar a sala dele”, explica o empresário e sanfoneiro Amazan Silva.
Quem conta essa história é um empresário de sucesso. Um homem nascido no Nordeste, que conseguiu tudo isso sem deixar a terra onde nasceu. Uma carreira que começou na sala de reboco.
“Domingo vai ter um reboco lá em casa! Aí, compra uma branquinha, manda matar umas galinhas de um chiqueiro ou um bodezinho, prepara aquela comedoria, aquela bebidazinha...Os ‘cabra’ vem, passa a manhã inteira rebocando a sala e ‘dispois’, como diz o matuto, depois vão dançar na sala de rebocada. Na sala de reboco”, conta Amazan.

Amazan aprendeu a tocar sozinho, ainda criança, com a sanfona de um primo, o Hamilton. A mãe dele ficou espantada!
Globo Repórter: Menino pobre, sem sanfona, trabalhando na roça...Como é que veio o sonho da sanfona?
Amazan Silva, empresário e sanfoneiro: Ah, porque já era um pensamento de ser artista e de mudar de vida, né? Ao invés de estar apanhando algodão, limpando mato, estar tocando sanfona. Eu imaginava que era mais gostoso! Como de fato é.

Globo Repórter: A sanfona era o passaporte para uma vida melhor? 
Amazan Silva: Pra uma vida melhor, sem sombra de dúvida. E graças a Deus, foi o que aconteceu.

De sanfoneiro, ele virou dono de uma fábrica de sanfonas - a única do Nordeste. Embarcar nesse desafio foi conselho de amigo: “É melhor você, em vez de montar, fabricar logo, rapaz! Você ser um fabricante de acordeão”, relembra o cabelereiro e sanfoneiro Elídio Batista.

Elídio era barbeiro de Amazan naquela época.

“E eu, cortando o cabelo dele, ele chegou pra mim e disse: ‘eu vou pra Itália!’ ‘Fazer o quê?’ ‘Me informar sobre acordeão!’”, diz Elídio.

“E o resultado foi que, quando eu fabriquei a primeira, levei pra casa, eu não consegui dormir também, porque eu deixei a sanfona na sala e fiquei deitado no quarto. De vez em quando eu levantava pra ir olhar a sanfona. Aí, pra facilitar, eu trouxe a sanfona e botei perto da cama. De vez em quando eu descobria o rosto e olhava pra sanfona”, lembra Amazan.
“A sanfona é uma filha que eu estou tomando conta”, diz Veneziano Barbosa, funcionário da fábrica. Veneziano é o funcionário mais antigo. Antes da fábrica, ele já trabalhava para Amazan. Perdeu os dedos, cuidando dos bodes que ele tinha no quintal.
Veneziano Barbosa, funcionário da fábrica: Aqui eu cortava capim e moía na forrageira para os carneiros de raça de Amazan.
 
Aprendeu a nova profissão graças a Amazan.
“Hoje eu tenho orgulho que ensinei a vários meninos aí, já tem os meninos trabalhando. Fui eu que ensinei a eles. É muito bom. Quando eu vejo um sanfoneiro em cima de um palco, quando eu chego, vou lá olhar qual a sanfona que ele está tocando. Porque, se for uma que a gente fabricou, eu digo ‘minha mão passou ali’. A gente tem muito orgulho”, conta Veneziano.

O modelo mais completo chega a custar mais de R$ 20 mil. A fábrica tem 22 funcionários. Mão-de-obra especializada, um time de primeira.
Amazan Silva: Em um país que tanto precisa de emprego, você consegue uma coisa como a gente fez, realizar um sonho, mas também empregar várias famílias.
Globo Repórter: Mas você continua firme no palco?
Amazan Silva: Ah, não tenha dúvida! Nesse período agora, o que não falta é forró.

Paixão pela sanfona une quatro gerações de família no Recife
Quatro gerações e uma paixão sem limite pela sanfona: a história da família Alves começou no interior da Paraíba, em Itaporanga. No sítio, o palco é o quintal de casa, debaixo do pé de cajarana, uma árvore centenária.

Badu e Maria José têm três filhas. As meninas já estão moças. Mas cresceram no meio da festa.

Globo Repórter: Você fez questão que suas filhas aprendessem música?
José Hilton Alves (Badu), empresário: Foi. Na nossa casa sempre a cada duas bonecas tem que ter um instrumento de música - um cavaquinho, violão. Elas mostraram as suas habilidades e, depois, cada um tomou seu caminho profissional de acordo com a sua convicção, mas Luci se decidiu e jogou todas as cartas na música.

Luciane é Luci Alves. Estudou música e está seguindo carreira solo. Larissa e Lizete escolheram a medicina. Mas família que toca unida, permanece unida - sempre que podem, eles sobem juntos ao palco.
A sombra da cajarana guarda muitas histórias de sucesso. Foi nas festas de São João que um tio-avô dela encontrou um caminho para mudar a história da família.
“Aprendi a tocar e, graças a Deus, fui feliz. Soube muito bem administrar o que ganhei, investi certo e hoje nossa família é independente. Saímos do alugado pra hoje ter filhos, netos formados”, conta o sanfoneiro Severino de Araújo, o Biu de Dedé.
O tio Biu, de 85 anos, sempre foi um exemplo para todos.
“Nunca é tarde pra viver feliz. Eu continuo com o mesmo prazer de viver, por conta da família, por conta da minha amizade, a minha boa referência dentro da sociedade - e a vida continua. Eu ainda penso que vou viver muito! E vai dando certo” afirma.

Quando se pergunta ao menino Heitor qual é o maior sanfoneiro que ele já conheceu, ele aponta para o avô.

“Com a sanfona você faz uma festa sozinha! Você consegue tocar de tudo. Então, esse fascínio foi me movendo e, aos poucos eu fui abraçando e me apaixonando cada vez mais pela sanfona. No começo eu tocava baixo, outros instrumentos e painho sempre falava: ‘se dedique à sanfona, menina! Isso aí vai ser a sua felicidade. Você vai ver’. E foi assim”, conta a sanfoneira Luci Alves.

E é assim todo ano! A sanfona dá o tom e sustenta muitos brasileiros.
O comércio se enfeita à espera dos fregueses. As costureiras têm que se apressar para entregar as encomendas.
“Claro que a gente tem que ganhar dinheiro, que é pra poder fazer os pagamentos das funcionárias que trabalham comigo. Mas eu ainda faço doação de duas roupas, porque nem todos tem dinheiro suficiente pra pagar à quadrilha. Em todo canto que a quadrilha vai, eu vou. Eu sou apaixonada, apaixonada, mesmo, pela quadrilha. Posso nem falar muito, senão eu vou chorar, viu? É muita paixão”, conta a costureira Etiene Cavalcanti.

O negócio é sério: durante três meses, uma fábrica só faz sapatos para quem participa das festas juninas.

“A gente começa com dificuldade nos primeiros meses do ano, mas quando chega esse período de abril a junho, a gente tem emprego garantido”, diz o empresário Lucivan Batista.

Orquestra Sanfônica faz a alegria do público em João Pessoa
Mas são os sanfoneiros que fazem a festa: a apresentação da Orquestra Sanfônica de João Pessoa, na Paraíba, é uma alegria.

“São momentos emocionantes. O tempo todo o público canta com a nossa orquestra, porque são músicas que já se tornaram hinos aqui no Nordeste”, conta o maestro Lucílio Souza.
“Essa época é boa demais, porque é o décimo terceiro do sanfoneiro, né? É no São João”, conta o sanfoneiro Rodrigo Machado.
Eles já viajaram para a França e vão aonde o povo está.
“A gente trabalha com a orquestra, fazendo com que esse trabalho seja de excelência e possa alcançar qualquer tipo diz o maestro Lucílio Souza.
Fointe: http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia
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