quarta-feira, 8 de julho de 2009

CANTORIA DE VIOLA NORDESTINA

CANTORIA


A poesia popular é o verdadeiro pano de fundo da cantoria. Tem suas raízes fincadas na França, onde começou a florescer com maior realce por volta do século XI. Adentrou no Brasil em meado do século XVII pela fusão da poesia local portuguesa com a trova dos poetas franceses, alojando-se de forma acentuada no Nordeste, mais precisamente e com força total nos estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Daí caber ao Brasil o privilégio do aparecimento do legítimo cantador de viola. Admite-se, no entanto, que a literatura oral, pré-documental, pré-escrita da cantoria nasce no beduíno do deserto e tem no repentista nordestino sua maior e mais legítima expressão. Atente-se para a origem árabe da rabeca e da viola, instrumentos destinados ao acompanhamento dos cantadores..

Para JOSÉ DE SOUSA DANTAS cantoria de repente, desafio, canto de improviso ou cantoria de viola é um evento cultural, uma forma de expressão poético-musical, com uma ou mais duplas de cantadores, os repentistas ou violeiros, que tocam viola, pensam, se inspiram, cantam e desenvolvem versos de improviso com 07, 10 ou 11 sílabas poéticas, referentes a vários temas sobre a vida, o amor, a natureza, o homem, a saudade, ... incluindo temas atuais, aplicando rima, métrica, oração, melodia, dentro das diversas modalidades existentes: sextilha, martelo, galope à beira mar, quadrão perguntado, Brasil caboclo, gemedeira e muitos outros estilos.

Os repentistas, esses gênios nordestinos, de qualidade ímpar e distinta, cantam e encantam, mostrando arte, criatividade, acuidade, vivacidade, atenção, controle, cuidado, talento, habilidade, discernimento, capacidade, decisão, elegância, conhecimento, cultura, numa integração com o público ouvinte, que aprecia, aprende, gosta e aplaude os astros do repente.

A cantoria de repente é sinônimo de cultura, onde se identificam os seguintes aspectos: trabalho, produção inédita e rápida de estrofes, arte, talento, diversão, encanto, inteligência, conhecimento, cenários, percepção, inspiração, tradição, raciocínio, sensibilidade, harmonia, sentimento, integração, vocação, maestria, música, voz, atração, criatividade, intuição, empatia, argumentação, combinação das melhores palavras na melhor ordem, chuva de idéias, de frases, de motes, construção de conceitos, mensagem, visão, aplauso, magia, filosofia, reflexão, memorização, divulgação, mitologia, curiosidades, sensação, canto dos fatos no exato momento da ocorrência do evento, dedicação, emoção, coordenação, desafio, eloqüência, coerência, alegria, linguagem acessível, surpresa, transparência, poesia, equilíbrio, cadência, mímica, elogio, apologia, história, experiência, energia, louvor, vanglória, diversidade de temas, renovação, argumentação, utilidade, comunicação, síntese, contextualização, realidade, ficção, ousadia, arranjo, enredo, concentração, seqüência lógica, rumo, autoconfiança, segurança, entre outros itens que moldam a criatividade desses artistas populares, porque falam ao povo.

Para a preservação dessa expressão poética, que representa nossa autêntica raiz nordestina, cujo mérito artístico merece consideração e o zelo dos diversos operadores da arte e cultura , é preciso que haja permanentemente apoio, incentivo, valorização, respeito, produção e divulgação de trabalhos, realização de eventos, cursos, participação de massa, garantindo um maior espaço no mundo da cultura, inclusive nos meios de comunicação, nas escolas, nos eventos oficiais, onde esteja presente a criação artística de qualquer natureza ou gênero, universalizando as obras dos mestres em todos os segmentos, contribuindo, desse modo, para a formação e edificação do povo, e engrandecimento do acervo cultural, da região e do país.




A CANTORIA É CULTURA E DEVE SER ACOLHIDA, DECANTADA ...
(José de Sousa Dantas)


CANTORIA é um misto
de cultura, diversão,
talento, arte e beleza,
empatia, tradição,
encanto, luz e poesia,
novidade e harmonia,
conhecimento e magia,
desafio e alegria,
eloqüência, integração, ...

A CANTORIA É CULTURA,
que eleva, promove, ensina,
desperta, envolve, interage,
encanta, inspira, fascina,
surpreende, comunica,
contribui, dignifica,
beneficia, edifica,
emociona, ilumina, ...

Tem MOTES apresentados,
importantes, sugestivos,
distintos, metrificados,
inéditos e criativos;
inspiradores, cantantes,
verdadeiros, construtivos,
poéticos, inteligentes,
atuais e pertinentes,
agradáveis, instrutivos, ...

Na CANTORIA há lição,
conhecimento, surpresa,
improviso, sutileza,
filosofia, emoção,
trabalho, composição
autêntica, metrificada,
com a rima encadeada,
na melhor desenvoltura,
A CANTORIA É CULTURA
E DEVE SER DECANTADA.

CANTORIA É SINÔNIMO DE CULTURA
(José de Sousa Dantas)

CANTADOR tem a mente iluminada,
pra fazer o trabalho em harmonia,
aplicando cadência e melodia,
com a rima propícia encadeada,
cada frase já sai metrificada,
compatível com o procedimento,
escolhido pra o desenvolvimento
de assuntos de VIDA, AMOR E PAZ,
TERRA, ÁGUA, DESTINO e tudo mais,
comprovando que tem conhecimento.

CANTORIA É SINÔNIMO DE CULTURA,
de talento, beleza, diversão,
de magia, de arte e sentimento,
de encanto, de luz e emoção,
equilíbrio, surpresa e energia,
desafio, mensagem e tradição.




Faremos lembrar nessa altura nomes dos ases da viola e do repente, do passado e do presente, sem, no entanto, termos a pretensão de esgotarmos a lista: Inácio da Catingueira, Romano do Teixeira, Fabião das Queimadas, Pinto do Monteiro, Cego Aderaldo, Antônio Marinho, Manoel Xudu, Belarmino de França, Diniz Vitorino, Severino Ferreira, Eliseu Ventania, João Liberalino, Ercílio Pinheiro, Antônio Nunes de França, Severino Feitosa, Sebastião da Silva, Louro Branco, Cícero Nascimento, Ivanildo Vila Nova, Pedro Bandeira, Geraldo Amâncio, Moacir Laurentino, Sebastião Dias, Irmãos Batista (Dimas, Lourival e Otacílio), Antônio Silva, Valdir Teles, Benedito Nascimento, José Catôta e a lenda viva nos seus 84 anos de idade e 60 de viola, o mais idoso em plena atividade: FRANCISCO FERNANDES DA MOTA (Chico Mota), titular do programa VIOLEIROS DO SERDÓ (Emissora de Educação Rural de Caicó), o programa do gênero mais velho do mundo.

CURIOSIDADES:

- A deixa, em cantoria, tem como autor o cantador paraibano Silvino Pirauá de Lima, que foi também criador do martelo agalopado. Faleceu em 1913 sem ver prosperar sua inovação. Somente em 1926, em acalorado confronto entre Pinto do Monteiro e Antônio Marinho, na Vila da Prata, município de Monteiro (PB), foi que o uso da DEIXA teve sua marcha inicial.

- A deixa antiga, de inspiração na literatura portuguesa , tinha como regra iniciar a estrofe seguinte com a mesma palavra com a qual terminou o último verso do companheiro.

- O poeta baiano, Gregório de Matos Guerra, teve influência do repentismo nordestino, pois ao deixar a Universidade de Coimbra, onde se bacharelou, fez versos de protesto à direção daquele estabelecimento de ensino.

- Agostinho Nunes da Costa foi o primeiro poeta popular conhecido no interior nordestino, tronco ascendente de várias gerações de repentistas, inclusive do trio de cantadores, os irmãos Batista. Foi o pai de Antônio Hugolino Nunes da Costa e Nicandro Nunes da Costa.

- A VIOLA é um instrumento de caráter onomatopaico, isto é, emite som que parece com a sua forma.

- Entre alguns poetas, ainda se preservam algumas superstições. Diz-se que a viola sofre influência da lua. Na lua nova não se guarda a viola afinada, porque ela pode ficar corcunda, entortar e rebentar as cordas.

- Madeira para VIOLA deve ser cortada nos meses sem “r” (maio, junho, julho e agosto), e no minguante da lua para nunca apanhar caruncho.

- Há um certo consenso entre os cantadores: o repentista que se preza não carrega a viola debaixo do braço, e sim, na mão.

- A “viola” surgiu depois da rabeca medieval e antes da atual família de violinos. É possível que tenha sido o primeiro instrumento de corda que o Brasil conheceu, importado de Portugal. Os Jesuítas a empregava nos seus trabalhos de catequese junto ao pandeiro, tamborim e a flauta de madeira.

- Apenas três cantadores do passado não faziam uso da viola: Inácio da Catingueira e Fabião das Queimadas, que utilizavam o pandeiro; e o Cego Aderaldo, que fazia uso da rabeca.




Manoel Dantas

Postar um comentário