segunda-feira, 28 de março de 2011

PETROLINA CIDADE PERNAMBUCANA

   
 
Postado por Ivan Maurício em 11/03/2008 12:45

PETROLINA (1)

NÉCTAR DO SERTÃO

Texto e fotos de Heitor e Silvia Reali


CONTRASTES: A IMENSIDÃO DAS ÁGUAS DO VELHO CHICO CORTA O SEMI-ÁRIDO.


Muito são-tomé teve que dar o braço a torcer depois de percorrer os mais de 700 quilômetros que separam Recife de Petrolina e encontrar, em pleno semi-árido pernambucano, uma paisagem como esta. E, na taça, um vinho solar, único, capaz de quebrar todos os paradigmas da enologia internacional.


Petrolinenses de boa cepa gostam de contar a história: 47 produtores de vinho do Rio Grande do Sul receberam, em 1999, um convite que lhes soou como bravata nordestina – conhecer as uvas e o vinho produzidos no sertão. Os incrédulos gaúchos, que carregam o tinto néctar em seus DNAs, tinham motivos para não acreditar, pois aprenderam a arte de fazer vinho com seus antepassados italianos. Esses, herdeiros de milenares técnicas, plantaram suas videiras nas melhores terras do sul do Brasil, cujo clima é semelhante ao europeu. Não era um lugar de solo esturricado, onde o verão começa em 1º de janeiro e termina em 31 de dezembro. “Entonados”, como diriam os gaúchos, esses vitivinicultores foram para Petrolina com a intenção de mostrar que não é assim que a banda toca.


Em lá chegando, sob um sol retumbante, tiveram primeiro que acostumar os olhos no sombreado do parreiral. Começaram a caminhar debaixo da extensão verdejante, numa fundura que confunde a perspectiva. Pé ante pé, e de bico calado, surpreenderam-se com a visão de um chuveiro de repolhudos cachos de uvas até onde a vista alcançava. Já com água nos olhos, um dos gaúchos não pôde evitar o gesto: tomou ar, levou a mão ao peito e entoou o Hino Nacional.

A glória de tal fartura é do Velho Chico e dos pioneiros que construíram 60 quilômetros de canais irrigados, sem esperar pela transposição do rio São Francisco – o que por lá se ouve falar desde os tempos de Pedro II. Aliás, dizem que foi em homenagem a seu pai, Pedro I, e sua mãe, Leopoldina, que batizaram a cidade, juntando os dois nomes.

Vinte e quatro colheitas por ano


A união de turismo com vinho não é novidade no mundo. As vinícolas investem em suas dependências para que o consumidor possa conhecer o processo de elaboração do vinho, desde o cultivo até a comercialização. Para João Santos, enólogo português da vinícola Rio Sol, município de Lagoa Grande, o termo “Roteiros do Vinho” em outros países soa um tanto forçado. “O único lugar do mundo onde se pode ver a uva verde ou madura, a colheita, a poda, a fermentação do mosto nos tonéis, a azáfama dos trabalhadores e técnicos, sentir o aroma delicioso que incensa o ar, enfim, todo o processo que envolve o vinho e que é o que o visitante gosta de ver, está no Vale do São Francisco.”


Marta Agoas, enóloga portuguesa que vive há quatro anos em Petrolina, demorou um ano para entender as virtudes dessa terra. “Precisei defender uma tese para provar que obtive com o vinho dessa região mais intensidade e vigor cromático do que na localidade do Douro, em Portugal, conhecida pela excelência em coloração dos vinhos”, explica. “Em um ano saí com 24 colheitas, o que me deu 24 anos de prática, me colocando ao lado de poucos profissionais no gênero.”


“VINHO COM MAIS INTENSIDADE E VIGOR CROMÁTICO DO QUE EM PORTUGAL.”


Vinho na fonte


Um dos mais renomados conhecedores de vinhos, o brasileiro Jorge Figueredo, escolheu as terras da Ilha do Pontal, no rio São Francisco, para plantar suas cepas e fazer seu vinho. Figueredo, que fez especializações em Milão, França, Portugal e Chile, defende a causa dos vinhos de Petrolina: “No mundo, os grandes vinhos descartam as primeiras safras e só iniciam sua fabricação a partir do décimo ano. Eu tenho esse ciclo em minhas terras já no terceiro”.

Em recente programa de gastronomia da televisão do Reino Unido, Jancis Robinson, tida como a mais importante jornalista de vinhos do mundo, elogiou a qualidade cada vez maior dos vinhos do São Francisco. (...)
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