domingo, 5 de fevereiro de 2012

CHAPÉU DE COURO: O capacete do vaqueiro nordestino

Domingo,05 Fevereiro 2012  - 20:15 hrs




“Quem usa chapéu de couro 
simboliza a região, 
tem as raízes da terra 
plantadas no coração”
Biliu de Campina


O Chapéu de couro é um símbolo do vaqueiro nordestino e faz parte da indumentária de proteção juntamente com o gibão e a perneira. Com esse conjunto o vaqueiro está pronto para se embrenhar na caatinga e capturar aquele boi mandingueiro, sem medo de se estrepar nos garranchos. “Vaqueiro que é vaqueiro só tira o chapéu de couro pra tomar banho, dormir ou quando está na missa.” É o que costuma declarar nas rodas de amigos o vaqueiro Manoel de Germano que aos 60 anos ainda se dana dentro do mato atrás de boi brabo. 

A indústria cultural não conseguiu tirar de circulação o velho e autêntico chapéu de couro, usado por Luiz Gonzaga, Lampião, Dominguinhos, Santana e tantos outros. Surgiram variações, mexeram no designer, inventaram novas técnicas de tratar o couro, mas ele continua firme e forte na cabeça dos nordestinos e até mesmo de turistas internacionais.

Atualmente a maior produtora de chapéu de couro do Brasil é a cidade de Cabaceiras no Carirí paraibano, situada a 180Km da Capital João Pessoa. Cabaceiras é uma das cidades que menos chove no mundo e é conhecida como a”Roliúde Nordestina” por atrair produções cinematográficas, a exemplo do filme Auto da Compadecida,gravado no município.

Cabaceiras possui um dos maiores rebanhos de ovinos e caprinos do estado. É um grande celeiro de artesanato em couro, a partir da pele de bode, curtida através de processo vegetal e utilizado na confecção de bolsas, sandálias, cintos, coletes, gibão, chaveiros, celas, arreios e o tradicional chapéu de couro.

A ARTEZA , uma cooperativa situada no Distrito de Ribeira à 14Km da cidade, reúne 8 fabricas de artefatos em couro, seis com sede no próprio distrito e duas em Cabaceiras. Atualmente mais de 300 pessoas, que antes não tinham renda, estão envolvidas no trabalho de produção de artefatos, inclusive na fabricação do chapéu de couro.

Em companhia do artesão José Carlos Castro, presidente da ARTEZA, visitamos algumas das fabricas em Ribeira. Uma delas foi a de seu José Guimarães que mandou abrir o seguinte letreiro na fachada: ARTESANATO DO ZÉ, O REI DO CHAPÉU DO CHIFRE. Eles fabrica diferentes modelos de chapéus com destaque para o chapéu de couro que já vem com um par de chifres de bode. 

Lá dentro da oficina, uma grande surpresa. Quando você pensa em couro de animal logo vem à lembrança daquele cheiro forte. Pois é, não foi assim. Essa é a grande diferença do material que é produzido na região de Cabaceiras. Em parceria com a UFCG – Universidade Federal de Campina Grande a ARTEZA desenvolveu uma técnica de tratamento do couro que envolve a fermentação, no qual ele não fica com aquele cheiro forte que estamos acostumados a sentir por aí.

Para Carlos Castro, a grande vantagem de se trabalhar com o couro de caprinos e ovinos é a elasticidade, a facilidade com que ele ganha forma, diferente do couro do boi. Experiente, Carlos nos deu uma aula de como fabricar o chapéu. O couro do animal é levado para o curtimento vegetal. Lá ele é tratado, pode permanecer cru, com ou sem pelo, ser tingido ou não.

Na segunda parte o couro é cortado, dependendo das medidas determinadas. Tudo feito à mão por jovens artesãos. No início eles tiveram que promover uma espécie de campanha para recrutar jovens para trabalhar nas oficinas e conseguiram treinar 30 pessoas. Na última vez que abriram vagas já foram 167 interessados que desta vez participaram de uma seleção. Eles têm que ter bom desempenho escolar para poder trabalhar nas fábricas.

Depois do corte o couro é molhado para ficar mais elástico e assim ser colocado nos moldes. É lá que eles ganham forma e vão para a secagem. Esse processo depende da temperatura ambiente e pode durar duas horas ou mais. Como chove pouco por lá, isso não é um grande problema.

Em seguida, o chapéu ganha a aba que vai proteger o rosto do vaqueiro do sol. Na Paraíba ela se caracteriza por ser curta. Em regiões como a Bahia ela costuma ser maior. Mas na oficina do Zé eles fazem de acordo com o gosto do comprador, com o pelo do animal e a aba branca, por exemplo.

A última etapa é a costura. Primeiro ele vai para a máquina de costura reta receber o acabamento, mas os desenhos e aplicações ficam por conta da máquina a mão, que apesar de ser mais trabalhosa é quem vai dar riqueza de detalhes ao chapéu.

Carlos castro viu o pai, José Ambrósio de Castro, produzir chapéus e trabalha com isso desde criança. Com apenas treze anos foi questionado por ele sobre o que queria fazer da vida. Carlos não contou conversa e sem demora respondeu: CHAPÉU DE COURO! Aos quinze já tomava conta de uma fábrica e de lá pra cá só tem ajudado a espalhar o nome de Cabaceiras. 

A qualidade do material e da produção é tanta que eles chegam a fazer até 3.600 chapéus por mês e vendem também para vários estados do Brasil e até para o exterior. “As vezes falta matéria prima e pessoal qualificado para atender a demanda” diz Carlos, que se orgulha de ter confeccionado chapéus de couro para artistas e personalidades do país inteiro.

O preço de um chapéu de couro na fonte varia de R$ 8,00 a R$ 30,00 e um gibão bem trabalhado chega a custar até R$ 500,00. 

Agora você já sabe. A cidade de cabaceiras na Paraíba produz um chapéu de couro de primeira, um chapéu que não tem cheiro, não deforma, não solta as tiras e apresenta estilos arrojados, incluindo chifres. 


Rafaela Gomes de Oliveira - Fonte in-parcialblgspot
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