sábado, 6 de setembro de 2014

Revista Aurora encontra ex-artista do circo de AURORA do palhaço Fuxico em asilo de Milagres



Data original, 17/05/2010/ 06/09, Nova data.

Neste último sábado dia 15, os pesquisadores da Revista Aurora à frente o seu editor e atual secretário de Cultura José Cícero juntamente com os professores Luiz Domingos e Ronaldo Santos estiveram na cidade de Milagres visitando a ‘Casa do Lar do idoso’ – uma instituição de caridade mantida pela Associação Beneficente Manduca e Letícia(ABEMEL).Desde a sua 1ª edição de 2007 a revista almejava publicar uma reportagem especial acerca da relação de Aurora com a arte circense, a partir da história do célebre palhaço “Fuxico” e o seu velho circo de pano de roda, composto na sua maioria por artistas da família e da região, muitos dos quais da terra.“Há muito que eu vinha ventilando a idéias de resgatar um pouco do que foi a história circense dos irmãos: Fuxico, Enoque e Lurdes e suas andanças por todo o Nordeste a partir de Aurora. Uma verdadeira saga de uma antiga família circense que teve início nos anos 30 no interior do Pernambuco, tendo prosseguimento nas terras aurorenses”, enfatizou o redator da RA o professor José Cícero. “Com esta intenção conversei diversas vezes com o velho Enoque Pintor, como era de todos conhecido. Vinha reunindo dados e informações também para um livro antes mesmo do seu falecimento ocorrido em 1999 aos 82 anos e, desde então conversado com as suas filhas”, disse JC. Este desiderato editorial por diversas vezes foi adiado por uma série de contratempos, sobretudo de caráter financeiro, em face dos altos custos do seu projeto gráfico. Além da reportagem especial que está sendo preparada para a revista, pretendo publicar o opúsculo: As Presepadas do Enoque Pinto. Onde estão reunidos vários causos, piadas e ‘tiradas chistosas’ do velho Enoque. Porém, recentemente, nossa equipe de pesquisa foi surpreendida com a notícia de que a terceira irmã do trio circense( Lurdes Pereira) estaria viva. Morando em um abrigo para idosos em Milagres. Desde então, ficamos na expectativa de checar in loco tal informação.“Nos meus 8 ou 9 anos recordo de ter visto o Fuxico e a Lurdes no circo “Tupinambá” montado, creio que nos finais dos anos 70 no distrito de Missão Nova.. Depois, outras vezes não mais acompanhada da cia; testemunhei Lurdes por semanas de bar em bar naquela vila, às vezes tocando um violão em troca de uma pinga, depois dormitando embriagadas pelas calçadas. Umas vagas lembranças eu diria...”Após a confirmação da notícia, dada por uma sobrinha da mesma, a equipe da Revista Aurora resolveu pôr o pé na estrada indo conferir de perto esta informação. Isso seria um verdadeiro milagre, ou quem sabe, um furo de reportagem, posto que há tempos que Lurdes era dada por desaparecida, inclusive pelos seus familiares. Aliás, até já tida como falecida, principalmente por ter se jogado no oco do mundo em suas andanças de alcoólatra mendiga sem destino. Sem eira nem beira, como costuma se dizer no sertão.De tanto fazer uso da bebida, também ficara um tanto quanto desmiolada, esquecida do mundo e da vida, diziam os parentes. Sua vida desde então fora por assim dizer, um eterno sofrimento. Abandonada que foi e esquecida que se tornou de quase tudo virara quase uma morta-viva. A amnésia tomara conta de si. Não mais conseguia sequer pronunciar uma só palavra. Até que um belo dia, por puro capricho do destino, a cerca de 12 anos atrás foi ela socorrida pela Casa do Lar do Idoso, quando se encontrava ébria, suja, doente e moribunda com as pernas quebradas sobre o chão das ruas do centro de Milagres.Lurdes Pereira Silva é seu nome. Informação elementar que no início nem ela mesma conseguia se lembrar. Até ser recuperada totalmente pelos que fazem aquela formidável casa de repouso milagrense. Um projeto que precisa ser melhor apoiado em face dos grandiosos serviços que tem prestado à vida e dignidade humana. Um orgulho para Milagres, assim como para todo o Cariri. Hoje a ex-artista do circo mambembe do Fuxico, encontra-se bem de saúde e de espírito. Ao ponto de nós receber com um sorriso quase angelical estampado no rosto encimado por seus fartos cabelos brancos.

Aos 82 anos Lurdes agora mais parece uma criança feliz e mimada é por todos os que compõem aquela casa de repouso. Onde, inclusive é chamada carinhosamente de Lurdinha e de Lulu. É a alegria daquele lar, tamanha é a sua simpatia e comportamento, assegura a diretora do lugar. Por mais de uma hora nossa equipe conversou com Dona Lurdes, que prontamente respondeu todas as perguntas ao gravador. Sua memória, malgrado o peso da idade, está prodigiosa. Ao ponto de falar de alguns acontecimentos da sua vida nos mínimos detalhes, assim como de algumas personalidades aurorenses do seu tempo, a exemplo dos prefeitos: Seu Tonheta, Seu Anastácio, Teó Gonçalves, ainda de Moacir Pinto, Paulo Gonçalves, Dona Louzinha Quezado, Vicente Tavares dentre outros. As possíveis falhas de memória foram diminutas para quem carrega nos ombros uma longa existências na sua maioria coberta de sofrimento e atribulações. Para ela, os irmãos Fuxico e Enoque ainda vivem em plena saúde. Jura inclusive, que ambos vez por outra vão lhe visitar no seu cantinho. De tão satisfeita, Lulu, até arriscou umas piadas no decorrer da nossa entrevista. Posou para as fotos e no final ainda nos agradeceu pela visita. Disse que estava feliz e que não tinha nenhuma saudade dos tempos do circo. Segundo ela, por que não era fácil aquela vida de cigano de cidade em cidade. Havia muito sofrimento. Porém, reafirmou se ainda fosse nova(moça como ela diz) faria tudo de novo.Disse à reportagem, ser mãe de 11 filhos; fruto de três casamentos. Alguns dos seus rebentos, conforme afirmou, residem ainda hoje na zona rural de Missão Velha na estrada de Jamacaru.Cortez e sorridente, falou de alguns momentos especiais e trágicos da sua vida circense como o acidente fatal de um trapezista em Aurora, bem como da viagem que fez com o circo do Fuxico nos anos 70 durante quinze dias viajando de barco de Pedreiras a São Luiz no Maranhão. Ocasião em que um redemoinho de quatro horas destruiu todo o barco e o circo foi para o fundo do rio. Perderam todo o circo, os integrantes se salvaram por sorte e pelas graças de Deus e das suas orações, disse ela. Dos seus 82 anos de idade quase três décadas e meia foram dedicadas ao picadeiro, que segundo ela, começara aos 5 anos, herança da sua mãe e do seu tio - os pioneiros. Era conhecida como ‘a baiana Lurdes’ seu nome de guerra. Foi dançarina, violonista, equilibrista, atriz, mágica, porteira e algumas vezes mestra de cena. Queria também ser trapezista, mas sua mãe a proibiu em face do perigo que representava.O fim dos seus três casamento/relacionamentos a impulsionou ao alcoolismo e a vida de intermináveis boemias e andanças pelo mundo, sendo inclusive abandonada até hoje pelos familiares. Há quase 13 anos vive no abrigo. Ainda não conseguira se aposentar dada a inexistências de todos os seus documentos pessoais extraviados nos seus anos de andanças perdidas pelo mundo afora.Afirma ter chegado à Aurora aos 5 anos de idade, tendo nascido no lugarejo de Carnaúba ou Pajeú das Flores, Estado de Pernambuco num ano que não lembra bem. Um local, segundo dizem, nunca encontrado pela direção do abrigo em que vive.Alimenta a vontade de qualquer dia desses visitar a sua Aurora. Uma terra que nunca esqueceu, como confidenciou a nossa reportagem. “Sou filha de Aurora, pois cheguei lá novinha, uma criança...”, explicou. Seu antigo jeito para o violão, disse com tristeza que de algum modo já esqueceu, posto que perdera muitas “posições” notas e antigas músicas. No abrigo, vez por outra, ainda ensaia seus antigos passos de dança, como nos velhos tempos. Anos atrás ainda chegou a tocar no abrigos.“Houve um tempo bom para quem vivia do circo”, disse ela. “Não era por ser meu irmão, mas não vi um palhaço nem um mestre de cena melhores do que Fuxico e Enoque”. “Enoque também pintava que era uma beleza...” disse ela sorrindo.Lurdes, ou Lulu como é carinhosamente chamada por todos está tão bem onde vive, que até está pintando. Um quadro bem colorido de arte abstrata enfeita a parede do vão de entrada do abrigo ao lado de outros trabalhos artesanais confeccionados por outras idosas da casa(ver foto acima). Lurdes é hoje a última remanescente de uma família do Cariri que fez história dedicando parte considerável da sua vida à arte de fazer a alegria do povo sofrido dos sertões, numa época em que poucas, ou quase nenhuma, eram as atrações de entretenimento cultural, notadamente nos grotões nordestinos, aonde nenhuma tecnologia ainda chegara, nem mesmo as transmissões de rádio.“Por tudo isso, eu diria que Lurdes Pereira, é um patrimônio vivo não somente da arte circense cearense, mas, sobretudo de Aurora”, enfatizou José Cícero. Não fosse o trabalho lindo, fantástico e abnegado da Sra. Maria Erivan, uma ex-freira, diretora da Casa Lar do Idoso, talvez não tivéssemos esta oportunidade histórica de estarmos conversando com nossa Lurdes Pereira, finalizou. “Aurora, assim como os deuses das artes haverão de agradecer a esta verdadeira heroína da caridade humana filha de Milagres e que também nos confessou ter raízes ancestrais na Aurora”, finalizou.

ABEMEL – Assoc. Beneficente Manduca e Letícia - Casa Lar do Idoso:
Fonte www.blogger.com
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